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ELEIÇÕES NA AMÂZONIA – “Ameaça para nós”: por que indígenas da Amazônia decidiram votar em Lula

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Entre rituais e fumaça: a eleição em uma aldeia no coração da Amazônia (Foto: MICHAEL DANTAS)

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A grave crise ambiental provocada pelas queimadas e pelos efeitos severos do El Niño na Região Norte tornou-se o principal divisor de águas para os eleitores da Amazônia. Na comunidade de Três Unidos, localizada às margens do Rio Negro e habitada por 120 indígenas da etnia Kambeba, a escolha do próximo presidente está diretamente associada à sobrevivência da floresta e da própria população local.

“É importante para nós escolhermos um candidato que defende a natureza”, afirmou o tuxaua Waldemir da Silva, de 67 anos, ao explicar sua opção por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Nas últimas semanas, a rotina dos moradores da aldeia foi severamente afetada pela fuligem das queimadas que atingem o Amazonas. “As queimadas hoje prejudicam o ar. As pessoas com problemas respiratórios, as crianças, as pessoas de idade, são afetadas, correm risco de vida”, alertou a liderança comunitária à reportagem da AFP.

Fumaça nas cidades e o medo do retrocesso

A apreensão dos moradores locais se estende até a capital, Manaus, que enfrentou dias sob uma densa camada de fumaça cinzenta. A moradora Tatiane Costa, de 38 anos, relata a angústia de sua filha, que estuda na capital e pediu para retornar à aldeia diante do ar tóxico na zona urbana. Para Tatiane, a manutenção das políticas de preservação é uma questão de segurança familiar diante das propostas do grupo político adversário.

No dia da votação, a mobilização da aldeia exigiu o deslocamento em lanchas pelo Rio Negro até uma comunidade ribeirinha vizinha. Ao longo do percurso fluvial, moradores fizeram gestos de apoio a Lula, demonstrando a forte preferência da região pelo atual mandatário, que retomou as demarcações de terras e criou o Ministério dos Povos Indígenas.

Para dar suporte simbólico ao candidato, o tuxaua Waldemir organizou rituais tradicionais com cantos e maracás para transmitir “a força e a coragem da onça”. A jovem Tainara da Costa Cruz, de 22 anos, reforça que a prioridade da comunidade é proteger o território: “Nós, indígenas, hoje sofremos muito com os impactos ambientais”.

Registros de destruição e seca no Amazonas

O cenário relatado pelos moradores reflete os dados alarmantes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Apenas em setembro, o estado do Amazonas registrou mais de 3.700 focos de incêndio — um volume quase quatro vezes superior ao apurado no mesmo período do ano anterior.

Em municípios vizinhos como Iranduba, grandes extensões de vegetação nativa foram reduzidas a cinzas, mobilizando brigadas de incêndio e deixando um rastro de destruição na fauna local. Para conter os estragos provocados pelo El Niño e pelas secas extremas, o governo federal anunciou o aporte de R$ 1,3 bilhão focado em ações preventivas e socorro emergencial às populações afetadas na calha dos rios amazônicos.

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