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Crianças testemunham 7 em cada 10 casos de agressão a mulheres e menos de 40% das vítimas recebe ajuda, aponta estudo inédito

Violência contra a mulher
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

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A violência doméstica no Brasil ainda se sustenta sobre um terreno conhecido: silêncio, medo e a velha crença de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Um novo levantamento nacional mostra que, apesar dos avanços legais, o ciclo de agressões segue acontecendo dentro de casa, diante de familiares e, com frequência assustadora, diante de crianças.

O estudo integra a atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), Instituto Natura e Gênero e Número.

Segundo o levantamento, cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica nos últimos 12 meses. Em 71% desses episódios havia testemunhas, e sete em cada dez agressões presenciadas ocorreram na frente de pelo menos uma criança. Em números absolutos, 1,94 milhão de situações são testemunhadas por menores. Os números reforçam o caráter doméstico da violência: ela não acontece nas sombras, mas no cotidiano da família, afetando gerações inteiras.

Apesar da presença de outras pessoas, o comportamento coletivo ainda é de omissão. Em 40% dos casos com testemunhas, a mulher não recebeu nenhuma ajuda. Para especialistas, o dado revela um problema cultural profundo: a normalização das agressões, a culpabilização da vítima e a ideia, ainda muito viva, de que conflitos domésticos devem ser resolvidos “entre quatro paredes”.

“O fato de tantas agressões ocorrerem diante de terceiros, especialmente crianças, mostra que a violência ultrapassa a vítima e atinge o ambiente familiar como um todo”, explica Marcos Ruben de Oliveira, coordenador do DataSenado. Segundo ele, esta é a primeira vez que a pesquisa investiga a presença de outras pessoas no momento da agressão, revelando a extensão social do problema.

A espiral que não se rompe

Entre as 21.641 mulheres ouvidas, 58% relatam viver violência há mais de um ano. O dado expõe a dificuldade de romper com o ciclo, geralmente marcado por dependência econômica, ausência de apoio e desconhecimento dos próprios direitos. A pesquisa mostra que muitas mulheres até buscam apoio, mas esse acolhimento raramente se transforma em denúncia formal.

Após sofrer agressões:

  • 58% procuraram familiares,
  • 53% recorreram a igrejas,
  • 52% contaram com amigos.

Mesmo assim, apenas 28% registraram boletim em Delegacias da Mulher, e 11% acionaram o Ligue 180. Isso significa que, em parte significativa das vezes, a mulher encontra acolhimento emocional, mas não orientação para seguir os caminhos formais de proteção.

Entre mulheres com fé religiosa, o comportamento também varia: 70% das evangélicas procuram apoio religioso, enquanto 59% das católicas buscam a família. Mas, em ambos os casos, a denúncia continua sendo exceção.

“Grande parte da violência doméstica permanece tratada no âmbito privado. Quem acolhe, familiares, amigos, lideranças religiosas, precisa orientar corretamente sobre onde buscar ajuda. Sem isso, a mulher permanece exposta”, alerta Beatriz Accioly, do Instituto Natura.

A distância entre a Lei Maria da Penha e quem precisa dela

O estudo revela ainda o tamanho do descompasso entre os instrumentos de proteção já existentes e o conhecimento que as mulheres têm deles. Embora seja uma das legislações mais completas do mundo, a Lei Maria da Penha é pouco conhecida por 67% das brasileiras, e 11% afirmam desconhecer completamente seu conteúdo.

O desconhecimento é maior entre mulheres:

  • analfabetas (30%),
  • com ensino fundamental incompleto (20%),
  • mais velhas (chegando a 18% entre as com mais de 60 anos).

A percepção de eficácia também varia: 33% das mulheres não alfabetizadas acreditam que a lei não protege, contra 15% entre as com ensino superior completo. A combinação de desconhecimento e falta de confiança ajuda a explicar por que tantas agressões se repetem sem que as vítimas busquem as instituições responsáveis pelo atendimento.

O que as mulheres conhecem

Apesar das lacunas, alguns serviços estão no radar do público feminino. As Delegacias da Mulher são as mais reconhecidas (93%), seguidas pelas Defensorias Públicas (87%) e pelos CRAS/CREAS (81%). A Casa da Mulher Brasileira, considerada um dos equipamentos mais completos de atendimento, ainda é conhecida por apenas 38% das entrevistadas.

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