Uma avaliação do Observatório de Infraestrutura de Transportes do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) aponta que os principais portos de exportação brasileiros, localizados nas regiões Sul e Sudeste do país, devem sofrer mais com os impactos das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros na última quarta-feira (22).
Os terminais dessas regiões são os que mais concentram mercadorias industriais, como móveis, maquinário, plásticos e têxteis, as mais afetadas pela tarifa por serem dependentes do mercado norte-americano.
Outras categorias de produtos a sofrer com as tarifas, que afetam até 23,1% do valor das exportações, são as rochas naturais, o papel e a celulose e o setor de calçados.
Até 52,7% das exportações brasileiras foram poupadas pelas sobretaxas mais recentes dos EUA.
Entre as novas medidas de Trump estão uma tarifa adicional de 25% para determinados produtos especificamente brasileiros e outra de 12,5% para um grupo mais amplo de parceiros comerciais do país, que também inclui o Brasil. Ao todo, o valor acumulado das tarifas já soma 37,5% para alguns produtos.
De acordo com o MDIC, 1,9% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estão sujeitas apenas à sobretaxa de 25%, enquanto 4,7% são alcançadas exclusivamente pela tarifa adicional de 12,5%. Outros 16,5% estão sujeitos às duas tarifas. São, no total, quase 4 mil produtos da pauta exportadora, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Entre os produtos que não foram taxados, por outro lado, estão café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas e alguns produtos químicos.
As tarifas podem afetar até US$ 9,3 bilhões dos US$ 40,4 bilhões exportados pelo Brasil aos Estados Unidos na balança comercial de 2024.
No caso dos portos do Sul e do Sudeste, o efeito tarifário pode se espalhar da logística do terminal portuário à cadeia de fabricação, com efeitos continuados. Se uma empresa reduz os embarques para os EUA, um dos efeitos é a diminuição do volume transportado até o terminal, o que modifica a demanda por contêineres e por serviços de armazenamento e movimentação.
A ideia, agora, é redirecionar o comércio para outros compradores, na Europa, na Ásia e na própria América do Sul. O presidente Lula busca acelerar as tratativas para um acordo comercial entre China e Mercosul.
Segundo o Observatório de Infraestrutura de Transportes do IBI, parte significativa das cargas conteinerizadas destinadas aos Estados Unidos ainda está fora das novas sobretaxas.
As tarifas vêm em um momento de expansão da infraestrutura portuária do Brasil, que tem batido recordes de movimentação nos últimos anos.
Os portos brasileiros movimentaram 164,6 milhões de toneladas de cargas conteinerizadas em 2025, crescimento de 7,2% em relação ao ano anterior.
Em unidades equivalentes a 20 pés, os chamados TEUs, a movimentação chegou a 15,3 milhões, alta de 10,2%, de acordo com dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ).
No final de 2025, o total do setor aquaviário atingiu 1,4 bilhão de toneladas, alta de 6,1% em relação a 2024, e, só em janeiro deste ano, foram movimentadas 13,2 milhões de toneladas de cargas conteinerizadas, com crescimento de 8,1% em TEUs em relação a 2025.
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) avalia que os efeitos da política tarifária tendem a se concentrar em produtos manufaturados e semimanufaturados.
Parte da indústria aposta em políticas de negociação, como o setor de rochas naturais, sobretudo mármore e granito, que depende do mercado norte-americano.
Um dos instrumentos de negociação é o Proex, que financia vendas brasileiras ao exterior e elimina tributos sobre insumos necessários para a produção de mercadorias exportadas.
Em geral, o impacto sobre os portos brasileiros depende da capacidade de reorganizar mercados, rotas e cadeias produtivas.
Como parte da política Brasil Soberano 3.0, lançada pelo governo federal a fim de financiar empresas afetadas pelo tarifaço, R$ 18,5 bilhões foram mobilizados na nova etapa da medida, e os pedidos já somam R$ 18,2 bilhões adicionais.

