O ex-ministro José Dirceu voltou a criticar duramente Jair Bolsonaro (PL) e o campo político que o sustenta. Em entrevista ao ICL Notícias neste fim de semana, Dirceu afirmou que a tentativa do ex-presidente de abrir a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda (ação que motivou sua prisão preventiva) expõe não só a covardia do “imbroxável”, como também a incoerência do discurso da direita sobre punição, segurança pública e sistema penal.
Ao comentar o episódio, Dirceu foi direto: “Ele tenta fugir, faz aquela coisa ridícula, aquela coisa patética… Quer dizer, aquele instrumento de solda todos nós temos nas nossas casas. Um ex-presidente da República tem aquilo na casa dele? Queria fugir. Além de tudo, ele é covarde”. O petista ainda ironizou a movimentação de aliados que tentam minimizar a pena de Bolsonaro: “Agora estão discutindo redução pela dosimetria, como pode reduzir a pena do Bolsonaro para sete meses? Para ele ficar semiaberto e continuar conspirando contra o país”.
Dois pesos, duas medidas
Para Dirceu, o contraste entre a benevolência com Bolsonaro e o rigor defendido pela direita quando o tema é crime organizado revela o que chama de “hipocrisia evidente”. Ele lembrou que, enquanto bolsonaristas pedem prisão perpétua e pena de morte para traficantes, seus parlamentares atuam para aliviar a situação jurídica do ex-presidente. “É abusar da paciência do país. Eles exploram o sentimento legítimo de revolta da população com a violência no Rio e em Roraima, mas não aplicam esses mesmos critérios ao líder deles”, afirmou.
Sem dignidade
O ex-ministro também mencionou suas próprias experiências com o sistema penal para reforçar o argumento. Relembrou quando foi alvo do então juiz Sérgio Moro, na operação Lava Jato, mesmo sem provas, sendo preso quatro vezes durante, muitas delas, segundo ele, por perseguição judicial. “Todas as vezes eu obedeci a justiça, o país e a Constituição, apesar que a minha revolta não tinha limites, a minha indignação. Mas eu cumpri o meu dever de cidadão, que tem uma Constituição, essa é a regra do jogo, eles não têm dignidade nenhuma”.
Dirceu citou as conversas reveladas pela Vaza Jato, nas quais procuradores e Sergio Moro discutiam como mantê-lo preso: “Inventavam uma maneira de me prender de novo. Está lá: ‘Ele vai morrer na prisão, vai ficar 40 anos preso’”.
Natureza golpista
Durante a entrevista, Dirceu ainda alertou para o que considera a permanência da articulação golpista no país. Segundo ele, grupos bolsonaristas seguem tentando influenciar setores das Polícias Militares com “cultos religiosos, organização interna e discursos que buscam transformar as PMs numa guarda pretoriana”. Para ele, há governadores que alimentam essa politização, citando chefes de Executivo estaduais que expressaram solidariedade pública a Bolsonaro após a prisão.
Para o ex-ministro, Bolsonaro e seus aliados continuam representando uma ameaça concreta à democracia. “A natureza golpista e autoritária dele está aí e criou raízes no país”, disse. Dirceu criticou figuras públicas que se apresentam como democratas, mas tratam Bolsonaro com condescendência: “Muita gente vive em conluio com eles. É o conveniente de sempre”.
A entrevista foi marcada por um tom pessoal, político e direto, traço que Dirceu não fez a menor questão de suavizar. Em sua visão, o episódio da tornozeleira é apenas mais um sintoma de um movimento que, apesar das derrotas judiciais, não desistiu de tensionar as instituições. E que, segundo ele, tenta se vitimizar enquanto conspira: “É abusar da inteligência de cada cidadão e cidadã brasileira”.
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