A saúde mental tem ganhado espaço nas discussões sobre o ambiente profissional, especialmente diante do crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil. O Brasil registrou mais de 4 milhões de afastamentos do trabalho em 2025, impulsionados por um recorde histórico em transtornos mentais e comportamentais.
No entanto, entre janeiro e junho de 2026, o Brasil registrou 232.382 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais (uma queda de 13,2% em comparação ao mesmo período de 2025, que teve 267.690 casos).
Em entrevista ao portal A TARDE, a médica Geiza Nuñez, diretora de Comunicação e Marketing Adjunta da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), explica que o fenômeno tem múltiplas causas, que vão além das relações de trabalho.
“O aumento dos afastamentos do trabalho é multifatorial. Envolve desde a precarização da organização do trabalho, que gera sobrecarga e estresse, até a evolução do cenário socioeconômico do país, que promove incerteza financeira nas famílias”, afirma.
Ansiedade e depressão estão entre as principais causas
De acordo com a especialista, a ansiedade é a principal causa de afastamento entre os transtornos mentais, seguida pela depressão.
No ambiente profissional, fatores como pressão por resultados, jornadas excessivas, baixa autonomia e problemas de comunicação podem contribuir para o adoecimento. Fora do trabalho, dificuldades financeiras, violência, isolamento social e uso excessivo das redes também podem afetar o equilíbrio emocional.
A médica alerta que a exposição prolongada a situações de pressão pode provocar estresse crônico e sobrecarga mental.
“Esses são fatores de risco psicossociais que, sobretudo quando persistentes, geram estresse crônico e sobrecarga mental nos trabalhadores”, explica. Segundo ela, jornadas extensas também reduzem o tempo disponível para descanso, sono e lazer, com possíveis impactos na vida pessoal e familiar.
Irritabilidade e alterações no sono são sinais de alerta
Mudanças de comportamento e na rotina podem indicar que a saúde mental precisa de atenção.
Entre os sinais citados pela especialista estão irritabilidade, alterações no sono, dificuldades de memória, falta de disposição e redução do autocuidado. Ao perceber essas mudanças, a recomendação é procurar ajuda profissional antes que o quadro se agrave.
“Quanto antes procuramos ajuda, maiores são as chances de lidar com o problema de forma adequada”, destaca Geiza. O trabalhador pode buscar apoio de um profissional de confiança, como médico do trabalho ou psicólogo, para avaliar os sintomas e receber orientação.
O trabalhador pode receber benefício do INSS por isso?
O afastamento por transtorno mental pode dar direito a benefício previdenciário quando há incapacidade para o trabalho e são atendidos os critérios legais. Para empregados com carteira assinada, a empresa geralmente paga os primeiros 15 dias de afastamento.
Quando o período precisa ser prolongado, o trabalhador pode solicitar o benefício por incapacidade temporária ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A especialista ressalta que o diagnóstico, isoladamente, não garante a concessão do benefício. É necessário comprovar a incapacidade laboral por meio de documentação médica e, quando aplicável, de avaliação pericial. A análise depende das condições de cada caso e dos requisitos previstos na legislação previdenciária.
Empresas precisam prevenir o adoecimento
Para Geiza Nuñez, a prevenção exige mudanças concretas nas condições de trabalho.
As empresas devem identificar fatores de risco psicossociais, como sobrecarga, assédio e pressão excessiva, e estabelecer medidas para reduzir ou eliminar esses problemas. O acolhimento do trabalhador também é importante, mas precisa estar acompanhado de melhorias no ambiente profissional.
“É preciso realizar, de fato, o trabalho de prevenção. Primeiro, mapear os fatores de risco psicossociais presentes no ambiente laboral e, quando identificados, definir um plano de ação para mitigá-los ou eliminá-los”, afirma.
A médica acrescenta que o tratamento psicológico, embora importante, não substitui a necessidade de corrigir as condições de trabalho que contribuem para o adoecimento.
Geração Z sente mais a pressão profissional?
Sobre a possibilidade de a geração Z ser mais propensa ao adoecimento mental relacionado ao trabalho, a especialista pondera que não conhece estudos científicos sólidos que permitam confirmar essa hipótese.
Com base em sua experiência, ela observa que parte desses profissionais prioriza a qualidade de vida e tende a buscar outras oportunidades quando encontra ambientes de trabalho que não correspondem às suas expectativas.
A médica ressalta, porém, que não é possível generalizar comportamentos a partir da idade. “O olhar da prevenção deve estar voltado para os fatores de estresse gerados pelo trabalho, e não apenas para a forma como cada trabalhador reage a eles”, conclui.
Para ela, a prevenção deve considerar tanto as condições profissionais quanto as particularidades de cada pessoa.

