Há algum tempo a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para fazer parte da rotina médica. De ferramentas que auxiliam na análise de exames a sistemas capazes de organizar informações de uma consulta, a tecnologia vem ocupando cada vez mais espaço nos consultórios.
Mas, em meio a tanta inovação e avanços, uma pergunta ganha ainda mais força: a inteligência da presença é artificial?
Em entrevista ao A TARDE, o médico oftalmologista e cirurgião Guilherme Carneiro Rodrigues, editor de conteúdo da Afya e especialista em inteligência artificial aplicada à saúde, falou sobre os impactos da tecnologia na prática médica e defendeu que a IA pode contribuir para tornar o atendimento mais humano.
“Agora, a gente tem potencial para ela me aproximar e muito do meu paciente, sem sombra de dúvida. Ela vai me devolver para o meu paciente o tempo que eu me tirava para tarefas burocráticas. Então, sem dúvida nenhuma, eu falo para você que tem plena capacidade de humanizar ainda mais o meu cuidado”, afirma o médico.
O tema será um dos destaques do Afya Summit, que acontecerá neste sábado, 29, no Auditório do Ibirapuera – Oscar Niemeyer -, em São Paulo. Na palestra “A inteligência da presença é artificial?”, Guilherme vai abordar as tecnologias utilizadas no dia a dia da prática médica, tendo como principal eixo o cuidado centrado no paciente.
IA e a economia de tempo
Embora a inteligência artificial na medicina seja muitas vezes associada a exames avançados, pesquisas e tecnologias capazes de ajudar a identificar doenças, Rodrigues destaca que antes de ajudar a salvar vidas, a tecnologia pode, principalmente, economizar tempo do médico e facilitar tarefas da rotina.
“O que que vai chegar antes do meu consultório? Essa tecnologia super avançada ou uma tecnologia que vai me ajudar no dia a dia? “A inteligência artificial, ela vai salvar tempo, ela vai economizar tempo muito antes de salvar vidas”, afirmou, citando uma declaração do médico Matthew Langren, ex-Chief Scientific Officer for Health da Microsoft.
Para reforçar a ideia, o especialista usa como exemplos os chamados escribas digitais, ferramentas treinadas para acompanhar a conversa entre médico e paciente, transcrever as informações e organizá-las em formato de documentação clínica.
“Ele vai ouvir a consulta como um todo e, em tempo real, ao vivo, ao mesmo tempo que a consulta e a conversa entre o médico e o paciente acontecem, ele vai capturando o áudio daquela consulta em tempo real e transcrevendo aquele áudio no formato de um prontuário”, explica Guilherme.
A mudança pode parecer apenas administrativa, mas tem impacto direto na relação médico-paciente. Segundo o oftalmologista, estudos com médicos americanos mostram que uma parcela significativa do tempo de consulta é consumida diante da tela, enquanto o profissional registra informações no prontuário.
“Tem estudos com médicos americanos que mostram que 37% do tempo de uma hora de consulta, o médico passa olhando para tela, olhando exatamente para tela sem olhar para o paciente”, aponta ele, defendendo que essa postura não é por falta de humanidade, mas porque os profissionais têm que desenvolver diversos trabalhos manuais durante o atendimento.
Uso e finalidade da IA
O médico acredita que o tempo economizado pela inteligência artificial pode ser usado para ampliar a presença do médico diante do paciente ou para aumentar o número de consultas realizadas. Uma consulta que antes durava 30 minutos poderia, por exemplo, ser reduzida para 10 minutos, permitindo atender três pacientes no mesmo intervalo.
É justamente nesse ponto que o uso da tecnologia encontra a discussão sobre humanização. Para Guilherme, o impacto da IA não depende apenas da ferramenta, mas de quem a utiliza e de qual finalidade dá ao tempo economizado.
“Então, o uso que se dá depende muito de quem está utilizando, de como está utilizando e, principalmente, que interpretação ele está dando para aqueles dados”, avalia.
Por fim, Rodrigues afirma que, na prática médica, a inteligência artificial já aparece em diferentes frentes e, segundo pesquisa realizada pela Afya, é um instrumento de auxílio frequente aos profissionais da área.
” Pesquisa nossa da Afya. 74% [dos médicos usam a IA para] pesquisa de informações sobre medicamentos ou interações medicamentosas, 66% dos médicos utilizam para definição de conduta clínica, apoio ao diagnóstico ou apoio ao tratamento, 58% para educação médica continuada ou atualização científica, 30% para planejamento de rotina, produtividade ou organização pessoal, 28% planejamento de consulta ou preparação de pré-atendimento”, conclui.

