A Bíblia ensina que “a fé sem obras é morta” (Tiago 2:26) e que “pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:16). Em outras palavras, não é o discurso que define o verdadeiro cristão, mas suas atitudes. Pois bem… Amanda Servidoni, filiada ao PL e ex-chefe de gabinete da Prefeitura de Rio Claro (SP), foi flagrada em áudios de WhatsApp exigindo propina sobre o valor de uma emenda parlamentar de R$ 300 mil.
Nas gravações obtidas pelo portal Metrópoles, Amanda discute o valor que cobraria como “retorno” pela liberação dos recursos. “Ele vai gastar 100 mil com a pista, entendeu? E nós estamos dando 300. Desses 300 eu quero pelo menos uns 100, entendeu? Não quero 10%, filho. Vocês não sabem fazer negócio”, diz em um dos áudios. Ao portal, Amanda confirmou ser a autora das falas, mas negou irregularidades.
Na mesma sequência de mensagens, Amanda aponta que o valor da emenda, por si só, já era superfaturado, motivo que parece ser usado por ela para “definir” a sua propina: “Se ele falou que ele vai gastar com o caminho 100, ele vai tá ganhando 200 e nós 30?”, questiona Amanda em um dos áudios obtidos.
Em outro trecho da conversa, uma pessoa não identificada pela reportagem também aparece tratando de valores semelhantes em uma negociação com Amanda sobre emendas parlamentares. O interlocutor cita uma “prefeita” e uma “deputada”, cujos nomes não foram mencionados.
“Amanda, boa noite. Aquela emenda deve estar alinhada, deve estar encaminhada para a deputada lá. Eu não sei, esses dias tava numa correria, a prefeita tava atrás das festas, Romaria, muito compromisso, sabe? Mas se tiver alguma novidade, tá faltando alguma coisa… Foi feito um ofício, foi encaminhado dos R$ 300 mil. Você dá um alô, tá? Qualquer novidade amanhã, tá bom?”, disse o interlocutor. Nas conversas, Amanda responde dizendo que R$ 100 mil é o preço “para abrir portas” e facilitar o encaminhamento de novos recursos para outros municípios. Não fica claro se é a mesma negociata.
Projeto social e vínculos com o bolsonarismo
Amanda Servidoni é presidente do projeto social “Mulheres pela Fé”, que tem como madrinha a secretária estadual de Políticas para a Mulher, do governo Tarcísio de Freitas, Valéria Bolsonaro (PL). No último dia 23, Valéria inaugurou um escritório político em Rio Claro no mesmo local onde funciona a sede do projeto presidido por Amanda. Durante o evento, agradeceu nominalmente à aliada pela ajuda na estruturação do espaço.
Em nota enviada ao Metrópoles, mais do mesmo: a Secretaria de Políticas para a Mulher afirmou que não possui relação com o projeto e que a reportagem “não aborda nada que seja competência da pasta”. Afirmou ainda que as emendas parlamentares seguem os trâmites legais da Assembleia Legislativa e que o controle da aplicação dos recursos cabe aos órgãos de fiscalização.
Entre fé e poder político
O caso reabre o questionamento sobre o uso da fé como instrumento político, uma prática comum entre grupos alinhados ao bolsonarismo, que costumam associar o discurso religioso à defesa “da moral, da família e dos bons costumes”, mas frequentemente aparecem envolvidos em escândalos de corrupção e tráfico de influência.
O nome do grupo “Mulheres pela Fé” contrasta com as práticas reveladas nas gravações, lembrando as palavras de Jesus em Mateus 7:16: “Pelos seus frutos os conhecereis”. Em vez de servir como exemplo de honestidade e solidariedade, o episódio revela como símbolos religiosos continuam sendo usados para legitimar interesses pessoais e projetos de poder, inclusive ilícitos.
O caso serve também como alerta para o eleitorado evangélico e cristão nas próximas eleições. É preciso distinguir entre quem vive a fé e quem a usa como palanque. Porque, como ensina o Evangelho, “nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai” (Mateus 7:21).
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