A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou, nesta quinta-feira, 23, reajustes tarifários para oito distribuidoras de energia elétrica no país, incluindo a Neoenergia Coelba, que atende 415 dos 417 municípios da Bahia.
O aumento médio no estado será de 5,85%, afetando cerca de 6,92 milhões de unidades consumidoras. O impacto, no entanto, não fica restrito apenas à conta de luz doméstica.
No comércio, o aumento da energia elétrica já acende um alerta, especialmente em setores que dependem fortemente de refrigeração, iluminação e operação contínua de equipamentos.
O economista e presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Edval Landulfo, explica que o efeito do reajuste tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva. Ele classifica a energia como um “custo invisível”, mas essencial no funcionamento da economia.
“Nas prateleiras, a energia é um consumo contínuo, não se esqueça que os fios eles ficam ligados. Então, em padarias, por exemplo, dependem disso, os fornos elétricos, as câmaras de fermentação, iluminação constante. Em mercado, são os mais afetados devido à refrigeração”, conta o economista.
Segundo Landulfo, a energia elétrica não é um custo isolado. Ela atravessa toda a produção, desde a indústria até o ponto de venda.
“Tem alguns estudos que indicam que a energia elétrica pode representar de 15 a 25% dos custos operacionais de um pequeno mercado. E, em grandes redes, esse custo é muitas vezes equivalente à margem de lucro líquido da empresa”, detalha o especialista.
Da indústria ao caixa: o efeito em cadeia
Edval aponta que o aumento da tarifa não fica restrito ao comércio. Ele começa na indústria, que paga mais caro para produzir alimentos, bebidas e outros itens básicos, e se espalha pela cadeia de distribuição até chegar ao consumidor final.
Ele ainda aponta que esse movimento cria um efeito em cascata – o custo de produção sobe, o armazenamento fica mais caro e a logística também é pressionada. No fim, o comerciante, para não operar no prejuízo, ajusta o preço na prateleira.
“Quando a indústria paga mais caro por essa energia para fabricar, por exemplo, um leite, um pão de forma, um iogurte, ela repassa esse custo para o mercado. Então, quando o mercado recebe o produto mais caro e ainda precisa pagar mais caro para manter a sua própria refrigeração, seja de geladeiras e freezer ligado, ele repassa também a soma desses aumentos para o consumidor”, observa.
O economista lembra ainda que especialistas projetam que a energia pode adicionar cerca de 0,4 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) , de 2026, funcionando como um gatilho inflacionário. O IPCA é índice oficial de inflação do Brasil, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Pequenos negócios sob maior pressão
O impacto tende a ser mais forte nos pequenos comerciantes, como padarias de bairro e mercados de médio porte, que possuem menos margem para absorver aumentos.
Além da conta de luz, entram na equação custos como manutenção de equipamentos, ar-condicionado e iluminação.
“É um momento em que muitos estabelecimentos precisam rever processos, horários de funcionamento e até estratégias de compra para tentar equilibrar as contas”, esclarece Landulfo.
O economista alerta que o efeito no setor comercial pode ser ainda maior, chegando próximo a 10% em alguns casos. “Nesse grupo, o risco de aumento nos produtos é maior”, afirma.
Do invisível ao preço da prateleira
Na prática, o consumidor pode não perceber imediatamente a conta de luz mais cara, mas tende a sentir seus efeitos aos poucos, no pão, no leite, nos alimentos refrigerados e até nos serviços do dia a dia.
O aumento aprovado pela Aneel não afeta só a conta de luz do mês. Ele acaba impactando a inflação de forma discreta, porque encarece os custos de produção e, aos poucos, esse aumento é repassado até chegar ao bolso da população.
Os reajustes variam entre 5% e 15%, a depender da distribuidora. Segundo a Aneel, a principal pressão vem do aumento de encargos setoriais e dos custos de compra e transmissão de energia – componentes que, embora pouco visíveis ao consumidor, pesam diretamente na formação da tarifa.

