Tudo começou com uma figurinha de bom-dia. Um passarinho simpático, daqueles que há anos atravessam as manhãs de um grupo de família, lembrando a todos que, apesar da distância, ainda existe um fio de afeto nos ligando.
Denise, talvez cansada da repetição, talvez convencida de que até as figurinhas precisam acompanhar o movimento da História, propôs a substituição do passarinho. Afinal, tudo tem seu tempo. Nada é para sempre.
Josué defendeu o passarinho raiz: conservador, de ideias firmes e valores relacionados à família. Não lhe agradava o passarinho colorido, que, segundo ele, voava por ideias vagas, gastando energia sem direção e sem preocupação com o futuro.
Denise apresentou suas ressalvas. Não queria um passarinho que, em nome da tradição, se associasse a um banqueiro suspeito de roubar o dinheiro dos joões-de-barro, vender as árvores aos gaviões e retirar benefícios dos pardais. Preferia o passarinho colorido, comprometido com todas as espécies.
A conversa, que já havia deixado o terreno da ornitologia decorativa, ganhou contornos trabalhistas. Alice comemorou o descanso do joão-de-barro. Denise esclareceu: agora ele constrói por cinco dias e descansa dois.
A fauna começou a se organizar politicamente.
Os gaviões, naturalmente, não respeitavam os pardais. As aves de rapina tinham seus interesses, seus negócios e suas árvores para negociar. Os pardais, por sua vez, continuavam tentando construir seus ninhos, criar seus filhotes e sobreviver ao custo de vida.
Foi então que Denise sugeriu que, no dia seguinte, a família discutisse flores. Afinal, havia flores com espinhos e até plantas carnívoras.
Gabriel aprovou a proposta, embora aproveitasse a oportunidade para registrar uma reivindicação importante: naquele grupo, só havia figurinhas de bom-dia e boa-noite. Onde estava a de boa-tarde?
A pergunta, aparentemente banal, talvez tenha sido a mais apartidária de toda a discussão.
Diante da crescente complexidade metafórica, Jessé levantou a hipótese de que alguém tivesse consumido alguma substância. A dúvida permaneceu sem resposta conclusiva.
Mas a conversa estava apenas começando.
Alice trouxe à discussão um áudio de um cristão comunista, homem de fé e conhecimento teológico, para lembrar que nem todo cristão veste a mesma camisa política. Sim, existem cristãos de esquerda. E, para surpresa de alguns, a Bíblia não vem acompanhada de título de eleitor.
Denise entrou no debate pela porta dos Evangelhos. Falou dos tubarões que usam a Bíblia para convencer os crentes de que seus adversários são inimigos da família, da vida e dos bons costumes, enquanto os próprios tubarões nadam tranquilamente em águas cheias de privilégios.
Os impostos das igrejas e os benefícios concedidos a grandes empresas entraram na conversa. Os peixes ganharam nomes, as baleias foram acusadas de intenções duvidosas e os tubarões continuaram circulando.
A zoologia política brasileira, como se vê, é bastante diversificada.
Josué, por sua vez, propôs que o passarinho banqueiro preso abrisse o bico e entregasse seus comparsas. Em sua avaliação, a gaiola poderia receber uma quantidade impressionante de aves: gaviões, araras, galinhas, periquitos, papagaios, urubus e até um certo molusco.
A hipótese de que uma delação pudesse produzir consequências para muita gente também apareceu. Afinal, quando a corrupção é investigada, a pergunta não deveria ser apenas quem está na gaiola, mas quem participou da construção do viveiro, quem forneceu o alimento e quem lucrou com a sujeira.
Denise ponderou que, até aquele momento, as suspeitas precisavam ser tratadas com o cuidado devido às evidências. Em política, como na Justiça, convicção não substitui prova. E a preferência eleitoral não deveria funcionar como venda nos olhos.
O molusco, contudo, já havia sido convocado para a conversa.
Foi quando a discussão encontrou seu altar.
Denise citou o Salmo 84, lembrando que até o passarinho encontra casa e a andorinha encontra ninho junto aos altares do Senhor dos Exércitos. Gabriel brincou com a possibilidade de desaparecer com dinheiro caso estivesse no viveiro, mas Denise respondeu que ele não faria isso: havia encontrado seu lar no altar.
A família riu. E, por alguns instantes, os pardais voltaram a ser apenas pardais.
Josué lembrou que até um passarinho que cantava um hino poderia estar envolvido no escândalo do viveiro. Alice, então, encerrou sua participação com uma reflexão: passarinhos brancos, verdes, amarelos ou roxos podem ser enganados; há passarinheiros que armam laços, e muita gente, concentrada apenas em derrubar o adversário, deixa de pedir discernimento a Deus.
A fé, afinal, não deveria ser instrumento de manipulação. Bastaria voltar aos Evangelhos para observar quem Jesus confrontava, quem protegia e contra quais formas de hipocrisia se levantava.
Josué respondeu com o Salmo 91: Deus livra do laço do passarinheiro.
Denise acrescentou a imagem de Jesus desejando reunir os filhos de Jerusalém como a galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas.
Eis um detalhe que merece atenção: no Reino de Deus, a metáfora mais acolhedora daquela conversa não era a do gavião que domina o céu, nem a do passarinho que se orgulha de sua plumagem. Era a da galinha que protege os pequenos.
Talvez a pergunta mais importante não seja qual passarinho canta mais bonito, mas quem está sendo protegido quando a tempestade chega.
Ao final, Denise reconheceu a inteligência dos interlocutores e a capacidade coletiva de construir boas metáforas. A família discordava, provocava, ironizava e, apesar de tudo, continuava conversando.
E aqui chegamos à conclusão inevitável.
Depois de tantas aves, flores, tubarões, passarinheiros e citações bíblicas, talvez seja hora de reconhecer que o problema nunca foi simplesmente escolher entre o passarinho raiz e o passarinho colorido. O problema é descobrir quem está devorando o alimento dos pardais, quem está derrubando as árvores dos joões-de-barro e quem vende o viveiro inteiro enquanto convence os moradores de que o maior perigo é a cor das penas do vizinho.
Quanto ao molusco, reconhecemos que ele também pode ser objeto de críticas, investigações e discordâncias. Não há espécie imune ao escrutínio, nem candidato que deva receber um cheque em branco.
Mas, entre um animal que se apresenta como dono do viveiro e outro que, gostem dele ou não, representa uma tradição política associada à proteção social, à valorização do trabalho e à ampliação de direitos, há diferenças que merecem ser examinadas para além das caricaturas.
E, se a disputa é para decidir quem merece governar o viveiro inteiro, nossa preferência é pelo molusco.
Não porque moluscos sejam perfeitos. Não porque seus defensores nunca errem. Mas porque, na política, o que importa não é a plumagem do candidato, a firmeza de seu canto ou a beleza de sua figurinha de bom-dia.
Importa saber quem come, quem trabalha, quem descansa, quem tem casa, quem encontra abrigo e quem fica com a maior parte dos frutos da árvore.
Que Deus nos livre do laço do passarinheiro, nos dê discernimento para reconhecer os lobos — e os tubarões — disfarçados de bons pastores e nos ensine a não confundir a defesa da família com a defesa dos privilégios de poucos.
E que nunca nos falte bom humor para discutir política em família.
Porque, no fim das contas, podemos discordar sobre os passarinhos, discutir as flores e desconfiar dos gaviões.
Texto enviado ao JCFF, de forma anônima porém tão profundo quanto oportuno de imprescindível reflexão.

