O uso de medicamentos para tratamentos relacionados à saúde mental cresceu no Brasil na última década, assim como a procura por atendimento psicossocial. Um levantamento elaborado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), divulgado no ano passado, aponta que o consumo de medicamentos antipsicóticos aumentou mais de 50% entre 2013 e 2023, enquanto os atendimentos psicossociais no Sistema Único de Saúde (SUS) praticamente dobraram.
De acordo com o estudo, o número de medicamentos utilizados em tratamentos relacionados à saúde mental passou de 29 milhões, em 2013, para 44,6 milhões em 2023. Já os atendimentos psicossociais cresceram de 13,1 milhões para 26,4 milhões no mesmo período. Para a psiquiatra Renata Pedroso Carvalho, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, o aumento pode refletir tanto um crescimento do sofrimento psíquico quanto uma mudança na maneira como a população encara os transtornos mentais.
“Hoje se fala mais sobre o assunto, existe menos estigma em procurar um psiquiatra ou um psicólogo e, consequentemente, pessoas que antes sofreriam durante anos sem tratamento estão chegando mais aos serviços de saúde”, afirma. Ao mesmo tempo, a especialista ressalta que o aumento no uso de medicamentos precisa ser analisado com cuidado. “Nem todo sofrimento emocional é necessariamente um transtorno mental e nem todo sofrimento precisa ser tratado com medicação”, explica.
Quando o remédio é realmente necessário?
Tristeza, frustração, ansiedade diante de determinadas situações e períodos de maior vulnerabilidade fazem parte da experiência humana. O desafio, segundo a psiquiatra, é diferenciar essas reações esperadas de situações que passaram a provocar sofrimento persistente, prejuízo funcional ou que caracterizam um transtorno mental.
A medicação pode ser indicada em casos como depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia e TDAH, entre outros, dependendo da gravidade, dos sintomas e do impacto na vida
do paciente. Mas medicamento não é sinônimo de tratamento psiquiátrico. “Em muitos casos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida podem ser suficientes; em outros, a medicação é fundamental, muitas vezes associada a essas outras estratégias”, afirma Renata.
Jovens estão tomando mais remédios?
O uso de medicamentos por crianças e adolescentes exige uma avaliação ainda mais cuidadosa. Para a especialista, porém, a questão principal não é simplesmente a idade em que alguém começa a tomar um remédio, mas se existe indicação adequada e acompanhamento profissional.
Existem transtornos que começam na infância ou adolescência e, nesses casos, o tratamento correto pode ser importante para o desenvolvimento e a qualidade de vida
. Por outro lado, como crianças e adolescentes ainda estão em fase de desenvolvimento, a indicação precisa considerar cuidadosamente os benefícios, possíveis efeitos colaterais e a necessidade de acompanhamento ao longo do tempo.
Memes podem banalizar medicamentos
A popularização de memes e piadas envolvendo medicamentos psiquiátricos também é vista pela médica com alguma cautela. Segundo Renata, o humor pode ajudar a reduzir o estigma relacionado à saúde mental e aos tratamentos. O problema surge quando a familiaridade faz com que medicamentos importantes sejam tratados como se fossem inofensivos.
“São medicamentos importantes e que têm seu lugar no tratamento, mas precisam de indicação e acompanhamento médico. Alguns deles, inclusive, podem causar tolerância e dependência quando utilizados de forma inadequada”, alerta.
Por que não se deve tomar remédio de outra pessoa?
Um dos principais riscos está na ideia de que, se determinado medicamento funcionou para alguém próximo, também funcionará para outra pessoa. “Um mesmo sintoma pode ter causas completamente diferentes, e usar uma medicação sem avaliação pode, além de causar efeitos colaterais, mascarar sintomas e até atrasar o diagnóstico e o tratamento correto”, explica a psiquiatra.
Por isso, medicamentos psiquiátricos não devem ser compartilhados nem utilizados por conta própria, mesmo que sejam conhecidos ou tenham sido prescritos para alguém com sintomas aparentemente semelhantes.
Remédio de tarja preta pode ser parado de uma vez?
Não. Segundo Renata, medicamentos que precisam de introdução e retirada gradual devem ser ajustados de acordo com orientação profissional. Começar diretamente com uma dose elevada pode aumentar a possibilidade de efeitos colaterais e até fazer com que o paciente abandone um tratamento que poderia funcionar se tivesse sido iniciado de maneira adequada.
A interrupção abrupta também pode provocar problemas. Dependendo do medicamento, podem surgir sintomas de retirada, além do retorno ou agravamento dos sintomas que estavam sendo tratados. “Não aumente, diminua ou pare uma medicação por conta própria. Se alguma coisa não está indo bem, converse com o profissional que acompanha você para ajustar o tratamento com segurança”, orienta.
Quanto tempo dura um tratamento psiquiátrico?
Não existe um período único. A duração depende do diagnóstico, da gravidade do quadro, da resposta ao tratamento e do histórico de cada paciente. Em alguns casos, o uso pode durar alguns meses. Em outros, anos ou até mesmo por tempo indeterminado. O fato de uma pessoa utilizar determinado medicamento por muitos anos não significa necessariamente que exista algo errado. Da mesma forma, sentir-se melhor não significa automaticamente que seja seguro interromper o tratamento.
“O importante é que a necessidade da medicação seja reavaliada ao longo do tempo. Usar um medicamento por muitos anos não significa necessariamente que exista algo errado, assim como estar se sentindo bem não significa que seja o momento de parar”, afirma Renata. A orientação, portanto, é que qualquer início, mudança de dose ou interrupção de medicamento seja discutido com o profissional responsável pelo acompanhamento.

