“A Turma”, grupo apontado pela Polícia Federal como braço de intimidação e espionagem ligado a Daniel Vorcaro, motivou a prisão de Henrique Vorcaro, pai do dono do Banco Master, nesta quinta-feira (14), em Belo Horizonte. A PF suspeita que Henrique manteve pagamentos ao núcleo comandado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, mesmo depois da prisão do filho, em novembro de 2025, e que teria acionado o grupo para acessar inquéritos sigilosos.
A prisão ocorreu na 6ª fase da Operação Compliance Zero. Segundo a nota oficial da Polícia Federal, a nova etapa mira uma organização criminosa suspeita de praticar intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos.
A PF cumpre sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. As ordens foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal. Também foram determinadas medidas de afastamento de cargos públicos, sequestro e bloqueio de bens.
O avanço da investigação mostra que o caso Banco Master não se limita mais ao suposto esquema financeiro que levou à liquidação do banco. A apuração agora trata “A Turma” como uma estrutura paralela de proteção, vigilância e pressão contra adversários, autoridades, ex-funcionários e jornalistas.
“A Turma” virou o eixo da prisão de Henrique Vorcaro
O ponto novo da 6ª fase é a suspeita de que Henrique Vorcaro não apenas conhecia a atuação do grupo, mas teria mantido sua engrenagem em funcionamento após a prisão de Daniel Vorcaro.
Mensagens encontradas no celular do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, preso em fase anterior da Compliance Zero, indicam que ele cobrou Henrique por pagamentos ao grupo. Em uma das conversas, Henrique teria respondido que faria um repasse de R$ 400 mil assim que recebesse recursos.
Em outra cobrança, Marilson teria ameaçado suspender a prestação de serviços. Para os investigadores, as conversas indicam que o pai de Daniel Vorcaro tinha papel de comando, demanda e financiamento no núcleo de Sicário.
A prisão de Henrique amplia a pressão sobre o entorno familiar do banqueiro e aprofunda a linha de investigação sobre uma possível rede de proteção montada ao redor do Banco Master. O caso foi detalhado em reportagem sobre a nova fase da operação da PF sobre o escândalo Master.
Quem era Sicário e como funcionava “A Turma”
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado de “Sicário”, é apontado como operador do grupo. Ele foi preso na Operação Compliance Zero e morreu após se suicidar na cela da Polícia Federal em Belo Horizonte.
Segundo a investigação, Sicário atuava com Marilson Roseno da Silva em ações de vigilância, monitoramento de pessoas, obtenção de informações sigilosas e possível intimidação de adversários de Daniel Vorcaro.
O grupo já havia aparecido nas apurações como núcleo usado para obstrução e ameaças violentas contra adversários, incluindo jornalistas. Esse histórico foi abordado na reportagem “A Turma”: Vorcaro foi preso por obstrução e ameaças violentas a adversários, incluindo jornalistas.
Sicário era tratado como peça operacional em ações consideradas sensíveis no entorno de Vorcaro. A morte dele na custódia da PF foi registrada na reportagem sobre o suicídio de Sicário após a prisão.
PF apura acesso a inquéritos sigilosos
Além dos pagamentos, a PF apura se Henrique Vorcaro acionou o grupo para acessar inquéritos sigilosos em tramitação na própria Polícia Federal.
A suspeita é que integrantes de “A Turma” tentassem obter dados protegidos para antecipar movimentos da investigação, identificar elementos já reunidos contra o grupo e blindar os alvos de novas medidas judiciais.
Esse ponto é central para a hipótese de obstrução. Para a PF, o grupo não funcionava apenas como uma rede informal de segurança privada, mas como uma estrutura de acesso clandestino a informações sensíveis de órgãos de investigação.
Na nota oficial da operação, a PF afirma que os crimes investigados são ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.
Ameaças contra jornalistas deram gravidade ao caso
“A Turma” ganhou repercussão nacional depois que mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro revelaram ameaças contra jornalistas que publicavam reportagens sobre o Banco Master.
Um dos casos citados nas apurações envolve o jornalista Lauro Jardim, de O Globo. Em mensagens obtidas pela PF, Vorcaro teria discutido a possibilidade de simular um assalto para agredi-lo.
“Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, dizia uma das mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro.
O teor da mensagem em que o banqueiro fala em “dar um pau” no jornalista está em reportagem sobre os diálogos atribuídos a Vorcaro. Para os investigadores, o diálogo reforçou o risco de intimidação e violência contra a imprensa.
Por que o pai de Daniel Vorcaro entrou na mira
Henrique Vorcaro, empresário mineiro e fundador do grupo que deu origem à Multipar, aparece na investigação em duas frentes: a relação financeira com o entorno de Daniel Vorcaro e a suspeita de atuação direta junto ao grupo de Sicário.
Antes restrito aos bastidores do mercado imobiliário e de infraestrutura, Henrique passou ao centro da investigação sobre o Banco Master. Seu perfil e sua relação com o banqueiro foram tratados na reportagem sobre quem é Henrique Vorcaro.
Em outra frente, a PF também investiga patrimônio e movimentações no entorno familiar de Daniel Vorcaro. Henrique e a filha Natália Vorcaro, irmã de Daniel e mulher de Fabiano Zettel, chamaram a atenção dos investigadores por uma mansão na Flórida, conforme reportagem sobre o imóvel ligado à família Vorcaro nos Estados Unidos.
Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, também é investigado no caso. Ele já havia aparecido em fases anteriores da Compliance Zero como personagem ligado ao núcleo de confiança do banqueiro.
Como “A Turma” se liga ao escândalo Banco Master
A Operação Compliance Zero começou com foco nas suspeitas de fraudes financeiras, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo o Banco Master.
Com o avanço das fases, a investigação passou a mapear outros núcleos do caso: o financeiro, o político, o jurídico e o operacional. “A Turma” entra nessa engrenagem como o braço de intimidação, vigilância e obtenção ilegal de dados.
As fraudes no Master e no BRB já haviam resultado na prisão de 13 pessoas em abril, antes da nova etapa contra Henrique Vorcaro. Esse eixo da apuração aparece na reportagem sobre as prisões por fraudes no Master e no BRB.
Também na Compliance Zero, a PF prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, em fase ligada ao caso Master. A prisão está registrada em reportagem sobre a operação contra o ex-presidente do BRB.
Núcleo político também entrou na investigação
A operação já havia atingido o núcleo político ligado a Daniel Vorcaro. Em 7 de maio, a PF mirou o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
Ciro virou alvo da PF por suspeitas relacionadas ao caso Master. A apuração também envolve diálogos e articulações sobre interesses do banco no Congresso, tema tratado em reportagem sobre a operação contra Ciro Nogueira.
Uma emenda de interesse do Banco Master também entrou no radar da investigação. O episódio foi abordado em reportagem sobre a emenda ligada ao Banco Master entregue a Ciro Nogueira.
Esse conjunto de fases mostra a amplitude da Compliance Zero. A investigação saiu do banco, alcançou operadores financeiros e jurídicos, avançou sobre o núcleo político e agora aprofunda a suspeita de uma estrutura de coerção e espionagem.
O que diz a defesa
A defesa de Henrique Vorcaro ainda não havia se manifestado sobre a prisão na 6ª fase da Operação Compliance Zero até a manhã desta quinta-feira.
Em manifestações anteriores, a defesa de Daniel Vorcaro negou irregularidades e afirmou que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, confiando no devido processo legal.

