O filósofo e professor da Universidade Federal do ABC, Victor Marques, fez uma ampla análise sobre os resultados das eleições nos Estados Unidos. Durante participação no Fórum Onze e Meia desta quarta-feira (4), ele ressaltou a influência da vitória do presidente Lula no Brasil na derrota histórica de Donald Trump e dos republicanos.
Victor abordou dois aspectos em relação à virada democrática nos Estados Unidos. “Primeiro é sobre o diagnóstico do que, na verdade, é o significado do fenômeno Trump, MAGA, digamos assim, e o outro é o papel do Brasil nessa contracorrente que se formou recentemente e que me deixou muito otimista e esperançoso com o futuro”, afirmou.
“Realmente o Lula é a figura que representou um contraponto político na arena internacional e, certamente, a vitória de Lula energizou as esquerdas e os setores democráticos do mundo inteiro. O Brasil é fundamental nesse processo”, declarou o professor.
Ele afirmou, inclusive, que, nas redes sociais, os estadunidenses têm dado amplo destaque para esse aspecto. “Eles têm falado muito disso. ‘Brasil, ouviu aí? Essa vitória é de vocês também. Nós fizemos aqui, fizemos nosso dever de casa’”.
Na avaliação de Victor Marques, o Brasil virou um tópico de discussão nos Estados Unidos, “inclusive na comemoração do campo anti-Trump e, agora, com a derrota do trumpismo. Os estadunidenses têm falado: ‘olha, vocês nos deram dicas importantes de como atuar nas redes, vocês nos ajudaram a apostar na mobilização, teve muita mobilização de rua nesses dias que precederam a eleição. Nos ensinaram a importância do get out the vote (esforço de mobilização para incentivar as pessoas a votarem), de levar as pessoas”.
O professor admitiu que, até alguns meses atrás, estava pessimista. “Pela vitória do Donald Trump há mais ou menos dois anos, pela capacidade dele levar as eleições latino-americanas, como deprimente foi a eleição, por exemplo, na Colômbia, que a gente tinha uma expectativa de vitória no primeiro turno, e aí o candidato da reação, o candidato trumpista, sai no primeiro turno à frente, ganha as eleições. O Espriella (Abelardo de la) é uma figura patética, ridícula. Uma mistura de Milei (Javier) com Pablo Marçal”.
Porém, ressaltou a importância da juventude nessa virada, que, por sua sensibilidade, percebeu a “mudança dos ventos”.
“Minha tese, agora, é que os estudantes lá de Niterói, que saíram às ruas, quando todo mundo achava que estava perdido, que estávamos derrotados, que a extrema direita era inevitável, os estudantes de Niterói tomaram as ruas e inspiraram saídas de movimento estudantil em todo lugar. Hoje, entendo que eles já estavam inspirados pelo clima internacional. Eles já estavam acompanhando a rebeldia dos secundaristas dos bairros periféricos da França, que estavam em pé de guerra há algumas semanas. Contra o neoliberalismo”, acrescentou.
Victor mencionou outro exemplo: “Os estudantes da Sérvia, que estão há alguns anos em mobilização, impuseram uma derrota eleitoral extraordinária para o nacionalismo de ultradireita. Os nossos estudantes estavam conectados com isso, espiritualmente conectados com isso. Então, na verdade, tem novos ventos soprando”.
De acordo com o professor, esses novos ventos contagiaram os brasileiros. “Nossa luta e nossa vitória se tornaram um símbolo mundial de que é possível derrotar a extrema direita. Porque o Brasil é um país muito populoso, um país muito conectado, muito ligado à internet. Então, vocês viram a Ada Colau (ex-prefeita de Barcelona) fazendo o “L”, a Claudia Sheinbaum (presidenta do México) fazendo o “L”, o pessoal da França, do Mélenchon (Jean-Luc), fazendo o “L”, e o Pedro Sanches, porque a situação ainda é difícil na Espanha, mas agora, com injeção de energia, de ânimo, de otimismo, falando agora que tem vias, é pegar o voto, é mobilização de rua, é disputar a rede, é o manual do janonismo (referência a André Janones)”, analisou.
“Então, acho que agora, com essa derrota no centro do império, no coração da coisa, de onde estava irradiando, a extrema direita vai entrar num processo de desmoralização. A moral das tropas neofascistas estará em baixa. E esse é o nosso momento de contra-atacar, uma ofensiva, aproveitar que as tropas inimigas estão atordoadas, desorientadas, e ir pra cima. Ir pra cima aqui no Brasil, comemorar nossa vitória, mas agir consequentemente nela, e ir para cima na Espanha”.
Vitória democrata nos EUA “superou as expectativas”
O professor reiterou a importância da vitória expressiva dos democratas nos Estados Unidos. “Superou as expectativas. Já era dado como certo que o Trump perderia o controle da Câmara, porque a sua rejeição era muito alta, era elevada, excepcionalmente elevada para o incumbente. Mas a vitória dos democratas na Câmara foi superior ao que se imaginava”, observou.
O que ainda estava em questão, segundo Victor, era se a onda democrata atingiria o Senado também. “Isso era uma dúvida até a noite da eleição. Mas virou o Senado, melhor do que qualquer cenário previsto. Virou com uma folga que não se imaginava, inclusive”.
Na avaliação do professor, o resultado marca uma rejeição profunda a Donald Trump, com aumento da participação eleitoral. “Isso, nos Estados Unidos, é mais significativo do que no Brasil. No Brasil, nós fizemos essa batalha para reduzir a abstenção, mas no Brasil o comparecimento é historicamente alto, até porque o voto é obrigatório. Como o voto não é obrigatório nos Estados Unidos, o comparecimento tem estado, nas últimas décadas, muito baixo”, avaliou.
Diante disso, “houve esse esforço de trazer o eleitor até a urna. Você teve uma boa quantidade de milhões a mais de eleitorados que ajudaram nesse ‘tsunami’ democrata, de caráter anti-Trump. Então, o trumpismo sai perdendo, inclusive, esses elementos da coalizão MAGA, que chegaram na última eleição, que é a big tech, a virada reacionária do Vale do Silício. Então, Elon Musk financiou, empurrou muito dinheiro nessas eleições e perdeu”, afirmou Victor.
Destaque por estados
Victor fez algumas considerações por estado. “O Texas, que era fortemente vermelho no sentido republicano, já não pode ser considerado mais um estado republicano, porque perdeu não só o Senado, como perdeu o governo. A governadora estadual (Gina Hinojosa), agora, inclusive, vai ser uma latina”.
O professor vê semelhanças com outro estado. “O Kansas é muito conservador há décadas. Nos dois casos, acho importante que os candidatos são quase ligados a uma espécie de Teologia da Libertação americana. Não tão marxista quanto a nossa Teologia da Libertação, mas um cristianismo social. São candidatos que defendem uma doutrina social cristã, se contrapondo ao conservadorismo do cristianismo neopentecostal. Uma outra linha de cristianismo”, apontou.
“Em Ohio e Michigan, que eram estados tradicionalmente democratas, mas pelo processo da desindustrialização, do avanço do neoliberalismo, se tornaram estados MAGA, votaram no Trump na eleição passada, mas deram viradas importantes. Michigan é o estado do Abdul El-Sayed (primeiro senador muçulmano eleito), que é esse candidato com a retórica populista, muito apoiado pelo Bernie Sanders (senador). Em Ohio, também fez barba, cabelo e bigode”, resumiu. “Claro que aparece um elemento geopolítico importante, que é o apoio à Palestina, o questionamento do genocídio de Israel na Palestina e a contrariedade à guerra do Irã”, afirmou.
Mudança de rota
Victor Marques analisou a ascensão e o que pode representar a queda do neoliberalismo, a partir dessas eleições nos Estados Unidos. “O que eu entendo é que, durante os longos anos 90, a fase de triunfalismo neoliberal, que se segue à queda do Muro de Berlim, a crise do socialismo real, o sucesso dos governos neoliberais de direita na década de 80, isso provoca uma reorientação do centro político”.
Diante do cenário, segundo ele, a centro-esquerda aderiu a um “consenso neoliberal no mundo inteiro e foi, paulatinamente, minando sua própria base, seu apoio operário, seu apoio na classe trabalhadora. Com isso, os partidos de centro-esquerda foram se tornando, progressivamente, partidos da elite intelectual, das classes criativas metropolitanas, cosmopolitas, ilustradas. É isso que se tornou a centro-esquerda na Europa e nos Estados Unidos”.
Porém, conforme a visão do professor, em algum momento, a direita, que não fazia parte do acordo centrista, “aproveitou essa insatisfação, a insatisfação com a desindustrialização, a insatisfação com a degradação da qualidade de vida, com o empobrecimento das camadas trabalhadoras e buscou mobilizar, mas claro, mobilizar de maneira racista, xenofóbica, um nacionalismo reacionário, mas mobilizar esse ressentimento daqueles que se sentiram como os perdedores da globalização”.
Victor acredita que essa avaliação é importante para entender por que Trump conseguiu ganhar estados como Michigan e Ohio, que eram centros democratas e que aderiram, inicialmente, ao MAGA. Mas, agora, mudaram de lado, atraídos, segundo Victor, por “um populismo econômico de esquerda”.
“Porque, de alguma forma, o Donald Trump foi contra elementos centrais do consenso neoliberal dominante nos longos anos 90. Ele tem uma postura muito antimultilateral, ele praticamente impediu o funcionamento da OMC (Organização Mundial do Comércio). O Trump depenou a OMC, tornou a OMC inoperante, passou a usar projetos de política industrial, fez as tarifas, o que era contra a globalização econômica, não conseguiu entregar resultados para a classe trabalhadora. Então, essa classe trabalhadora falou assim: ‘bom, o neoliberalismo não dá mais para a gente, vamos ver esse cara aqui que está falando mal da globalização’”, ressaltou.
“Houve desilusão com as promessas não cumpridas do Trump. Vamos ver se essa esquerda populista está à altura da responsabilidade que lhe foi atribuída agora nos Estados Unidos. A ver o que o Partido Democrata vai fazer. Sou daqueles que não confiam muito no Partido Democrata. É bom que eles tenham derrotado o Trump, mas o histórico das últimas décadas do Partido Democrata, seja dentro da política econômica, doméstica, para a classe trabalhadora, seja fora em termos da sua atuação imperialista no mundo, é muito ruim. Então, vamos observar se a gente está vendo, também, um realinhamento do Partido Democrata”, completou.

