A cena se repete diariamente nas ruas de Salvador. O sinal abre, os carros permanecem parados por alguns segundos e logo surgem as buzinas. “Sai do celular!”, reclama alguém atrás. O episódio, tão comum que já faz parte da paisagem urbana, revela um comportamento que muitos brasileiros conhecem, praticam ou testemunham todos os dias: o uso do celular ao volante.
O problema é que basta um rápido desvio de olhar para a tela para que o motorista deixe de enxergar o que acontece à sua frente. Essa espécie de cegueira momentânea, que dura apenas segundos, conforme explicam especialistas, pode ser suficiente para transformar uma mensagem aparentemente banal em um acidente grave.
Estudos da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) apontam que a distração provocada pelo celular é atualmente a terceira maior causa de mortes no trânsito brasileiro: uma média de 50 mil óbitos por ano, atrás apenas do excesso de velocidade e da combinação entre álcool e direção.
Mais do que uma questão de fiscalização, especialistas enxergam o problema como um desafio de saúde pública e de comportamento social. Em uma sociedade cada vez mais conectada, na qual trabalho, serviços, informação e comunicação cabem na palma da mão por meio de um smartphone, e que exige respostas imediatas, produtividade constante e disponibilidade permanente, muitos motoristas passaram a acreditar que conseguem dirigir e se comunicar ao mesmo tempo.
Em Salvador, os números de infrações ainda estão longe de refletir a dimensão real do problema. Dados da Transalvador mostram que foram registradas 14.689 infrações por uso de celular ao volante em 2024. Em 2025, o número subiu para 14.919 autuações. Nos três primeiros meses de 2026, já haviam sido contabilizadas 3.212 ocorrências.
“Apesar de registrarmos uma redução nas autuações por uso de celular ao volante no primeiro trimestre de 2026, os números ainda são preocupantes. O celular é uma das principais fontes de distração no trânsito e pode comprometer a atenção do condutor por segundos decisivos, aumentando significativamente o risco de sinistros, atropelamentos e colisões. Por isso, reforçamos a importância de que os motoristas mantenham o foco total na condução do veículo.” Diego Brito, superintendente de trânsito de Salvador.
O fenômeno tornou-se tão comum que, para muitos motoristas, deixou de ser percebido como uma conduta de risco. Segundo a Abramet, cerca de 50% das falhas de atenção registradas no trânsito brasileiro estão relacionadas ao uso do celular. A entidade estima uma média de aproximadamente 30 autuações por hora em todo o país.
Na Bahia, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a BR-324 concentra cerca de 90% das autuações por uso de celular registradas nas rodovias federais do estado. O trecho sob responsabilidade da Delegacia da PRF em Simões Filho tornou-se o principal epicentro dos flagrantes, abrangendo o corredor entre Salvador, Simões Filho, Amélia Rodrigues e Feira de Santana.
Segundo a corporação, a instalação de câmeras inteligentes de videomonitoramento provocou um aumento superior a 540% nas autuações. Os equipamentos utilizam tecnologia capaz de identificar em tempo real motoristas digitando mensagens, segurando aparelhos ou utilizando celulares apoiados no colo.
“A maioria dos condutores que utiliza o aparelho durante a condução não é flagrada. Muitos mantêm o celular nas coxas, escondido próximo ao câmbio ou apoiado discretamente no painel. Muita gente responde mensagens e acompanha redes sociais enquanto dirige”, comenta o caminhoneiro Deolindo Pacheco.
Legislação O Código de Trânsito Brasileiro classifica como infração gravíssima dirigir segurando ou manuseando o celular. A punição prevê multa de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Conforme orientações da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), “o trânsito seguro depende da escolha de cada condutor”. O órgão federal reforça ainda que a atenção ao volante deve ser integral durante todo o deslocamento.
Tela de celular causa cegueira momentânea; jovens são os que mais usam tela na direção
Mas o que preocupa autoridades e especialistas não é a multa e sim o potencial destrutivo de uma distração que dura apenas alguns segundos.“Se o problema fosse só a multa. O problema é o acidente”, resume o pedreiro Antônio dos Santos, vítima de atropelamento provocado por um motorista que utilizava o celular enquanto dirigia.
Entre os jovens adultos, a situação é ainda mais preocupante. Conforme estudo divulgado pela Abramet, o celular está relacionado a 57% dos acidentes envolvendo condutores entre 20 e 39 anos, justamente a faixa etária que concentra grande parte da população economicamente ativa.
Um acidente pode aconteerr justamente na chamada cegueira momentânea fruto de segundos de distração na tela. Estudos do Transport Research Laboratory (TRL), encomendados pela RAC Foundation, apontam que ler ou enviar mensagens pelo celular pode aumentar em até 35% o tempo de reação do motorista. Em velocidades de rodovia, esse intervalo é suficiente para percorrer dezenas de metros sem atenção plena à pista.
Conforme cálculos baseados em parâmetros adotados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), um veículo a 80 km/h percorre aproximadamente 22 metros por segundo. Isso significa que um motorista que passa quatro ou cinco segundos olhando para uma tela pode atravessar entre 88 e 110 metros praticamente às cegas, sem perceber uma frenagem brusca, um pedestre ou qualquer obstáculo inesperado.
Nas cidades, a distração também produz situações aparentemente simples, mas potencialmente perigosas. Agentes de trânsito relatam que as chamadas colisões traseiras de baixa velocidade estão frequentemente associadas ao uso do celular em congestionamentos e semáforos. O motorista confere uma mensagem, percebe pelo movimento lateral que os carros começaram a andar e acelera sem observar o veículo imediatamente à sua frente.
Mesmo em baixa velocidade, acidentes podem ser fatais com distração
Os efeitos dessa distração chegam diariamente aos hospitais e aos locais de resgate. Conforme dados do Ministério da Saúde, médicos de tráfego, socorristas e profissionais que atuam em emergências relatam que os acidentes provocados pelo uso do celular ao volante costumam apresentar uma característica recorrente: a ausência de marcas de frenagem na pista.
Em muitos casos, o motorista simplesmente não percebe o obstáculo, outro veículo ou mesmo um pedestre a tempo de reagir. O resultado são colisões de forte impacto, frequentemente associadas a traumatismos cranianos, fraturas e lesões cervicais. Segundo especialistas em trauma viário, quando não há desaceleração prévia do veículo, grande parte da energia da colisão é transferida diretamente para os ocupantes e para as vítimas atingidas.
PRF – Relatórios da PRF apontam ainda que a desatenção provocada pelo celular aparece entre os principais fatores associados a sinistros graves nas BRs 324, 116 e 101, algumas das rodovias mais movimentadas da Bahia.
Conforme dados utilizados em campanhas educativas da corporação, uma rápida consulta a mensagens ou notificações pode elevar em até 400% o risco de acidentes. A PRF alerta que a perda momentânea da atenção gera reações tardias que frequentemente resultam em colisões traseiras, saídas de pista e atropelamentos.
Viva-voz reduz o risco, mas não elimina
Muitos motoristas acreditam ter encontrado uma solução intermediária por meio do sistema viva-voz. O psicólogo Renato Vidal é um deles. “Eu evito atender ligações enquanto dirijo. Quando não tem jeito, uso o viva-voz do carro porque considero mais seguro. WhatsApp eu procuro não mexer”, afirma.
A percepção é comum, mas estudos citados pela própria Abramet mostram que o risco não desaparece completamente. Embora o viva-voz elimine a necessidade de segurar o aparelho, a conversa continua disputando atenção com o ambiente externo. De acordo com especialistas em medicina de tráfego, o viva-voz é menos perigoso do que manusear o telefone, mas ainda não representa a condição ideal para uma condução segura. O cérebro continua dividindo sua atenção entre a conversa e os estímulos do trânsito.
“Muitos motoristas desenvolveram uma dependência funcional do aparelho. Parece é impossível esperar alguns minutos para responder uma mensagem, confirmar uma reunião ou atender uma ligação”, comenta Renato. O telefone funciona como escritório, banco, agenda, navegador, ferramenta de trabalho e principal meio de comunicação de milhões de brasileiros.
Mudança de cultura é fundamental para diminuir acidentes
Entretanto, especialistas concordam que a transformação não será alcançada apenas por meio da fiscalização. O desafio passa por uma mudança cultural semelhante à que ocorreu com o uso do cinto de segurança e com a combinação entre álcool e direção.
Há algumas décadas, dirigir sem cinto era considerado normal. Também era comum encontrar motoristas que admitiam beber antes de assumir o volante. Com campanhas educativas, endurecimento da legislação e conscientização social, esses comportamentos passaram a ser cada vez menos aceitos.
Para a estudiosa de marketing Clara Soares, existe ainda uma responsabilidade coletiva nessa discussão. “É preciso que os trabalhos, os empregadores e os patrões também parem de achar que estamos disponíveis o tempo inteiro. O sistema como um todo precisa dar um descanso da gente no celular.”
A avaliação encontra eco entre especialistas em comportamento, que defendem uma revisão da cultura da hiperconectividade. Afinal, o celular se tornou indispensável para a vida moderna, mas a urgência permanente criada em torno dele também produz consequências.

