O que deveria representar esperança, alívio financeiro e o fim de uma longa espera na Justiça tem se transformado em pesadelo para milhares de brasileiros. O chamado golpe do “falso advogado”, que utiliza informações reais de processos judiciais para enganar vítimas, avançou de forma assustadora na Bahia e em todo o país, transformando a expectativa de quem aguarda aposentadorias, indenizações, causas trabalhistas ou ações de consumo em terreno fértil para organizações criminosas.
Os números revelam a dimensão da escalada. Dados da Procuradoria da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Bahia mostram que, em 2022, apenas dois casos haviam sido formalmente registrados no estado. Em 2023, o número saltou para 23 denúncias. Já em 2024, houve 105 ocorrências. Mas foi em 2025 que o cenário explodiu: 1.617 denúncias foram registradas apenas na Bahia. Em 2026, até agora, já são 217 novos casos.
No Brasil, a situação também preocupa. A Ordem dos Advogados do Brasil contabilizou mais de 14,6 mil denúncias do golpe em 21 estados e no Distrito Federal somente em 2025. Em São Paulo, foram mais de 4,3 mil registros em pouco mais de um ano e meio. A estimativa da OAB Paraná aponta que o número real de vítimas pode ter ultrapassado 17,5 mil pessoas em todo o país.
Por trás das estatísticas existem histórias marcadas pela vulnerabilidade, pelo desespero financeiro e pela falsa esperança criada por criminosos altamente especializados. O vice-presidente da OAB Bahia, Hermes Hilarião, afirma que o crescimento do golpe tem relação direta com a eficácia das quadrilhas e com a dificuldade de avanço das investigações policiais.
“Infelizmente os números são assustadores. A realidade é que todo o Brasil tem enfrentado esse tema do golpe do falso advogado. Houve um crescimento que assusta a OAB da Bahia, a advocacia brasileira e toda a sociedade, sobretudo porque as pessoas mais vulneráveis são aquelas vítimas do golpe. Muitas pessoas têm caído no golpe do falso advogado e essa prática criminosa tem gerado resultado para quem está envolvido nessas quadrilhas e organizações criminosas. Por outro lado, nós ainda não enxergamos, sobretudo aqui na Bahia, um avanço significativo nas investigações”, afirmou.
A fraude funciona de maneira sofisticada. Os golpistas acessam informações públicas disponíveis nos sistemas judiciais, como número do processo, nome das partes, fase processual e até valores discutidos nas ações. Munidos desses dados, entram em contato com as vítimas pelo WhatsApp, utilizando linguagem jurídica, documentos falsificados e até timbres de tribunais para convencer a pessoa de que existe um dinheiro prestes a ser liberado.
Segundo o advogado especialista em Direito Bancário João Marques, o golpe não nasce de uma mentira evidente, mas de uma construção extremamente convincente baseada em processos reais.
“O golpista não improvisa, ele constrói uma realidade paralela. Primeiro, ele capta uma petição real do processo judicial com o nome do cliente, endereço, descrição dos valores e informações do caso. Depois, ele contata a vítima já indicando o número do processo, o nome do juiz e a fase exata em que o caso se encontra. A vítima não percebe que está sendo manipulada porque tudo que ela ouve parece verdadeiro. O golpe não começa com uma mentira, começa com um espelho”, explicou.
De acordo com o especialista, a própria transparência do sistema judicial brasileiro acaba sendo utilizada pelas quadrilhas. “Grande parte dos processos judiciais no Brasil pode ser consultada online. Isso não é uma falha de segurança, mas uma característica da transparência do sistema. O problema é que criminosos utilizam essas informações para dar credibilidade ao golpe”, afirmou.
Alvos preferenciais são pessoas de baixo poder aquisitivo
O alvo preferencial das quadrilhas são pessoas em situação financeira delicada. Trabalhadores aguardando ações trabalhistas, aposentados esperando revisões previdenciárias, famílias envolvidas em inventários e consumidores que aguardam indenizações acabam se tornando mais suscetíveis. Conforme Hermes Hilarião, existe um perfil predominante entre as vítimas e a ansiedade pelo recebimento do dinheiro acaba sendo explorada pelos criminosos.
“São pessoas com menor poder aquisitivo, pessoas que dependem justamente daquele dinheiro para sobreviver. No afã de ver o resultado útil do processo, acabam sendo induzidas a erro por golpistas que prometem uma solução imediata. Muitas vezes esses criminosos utilizam timbres do Tribunal de Justiça, documentos falsificados e informações retiradas da internet para convencer as vítimas”, pontuou.
A engenharia psicológica é um dos pontos centrais da fraude. Os criminosos criam sensação de urgência, afirmam que há prazos prestes a vencer e pressionam a vítima a realizar transferências imediatas via Pix. Muitas vezes, utilizam contas bancárias de terceiros, o que dificulta o rastreamento do dinheiro.
João Marques alerta que um dos sinais mais evidentes da fraude está justamente no destinatário da transferência. “Os pagamentos geralmente não vão para contas em nome do advogado ou do escritório. Vão para contas de terceiros completamente alheios ao processo judicial. Essa é uma fragilidade do golpe que muitas vítimas não percebem no momento”, afirmou.
Entre os argumentos mais utilizados pelos criminosos estão falsas “taxas de alvará”, cobranças inexistentes para liberação de valores judiciais, supostos impostos antecipados e até honorários fictícios. Tudo sempre condicionado ao pagamento urgente via Pix.
Conforme o especialista em Direito Bancário, qualquer cobrança antecipada deve ser vista com desconfiança. “Em todos os casos, a cobrança antecipada via PIX, fora dos autos e sem qualquer registro processual, é o sinal definitivo da fraude. Nenhum valor judicial legítimo é liberado mediante pagamento prévio feito diretamente pela parte”, destacou.
O avanço tecnológico também elevou o nível do golpe. Em 2025, segundo João Marques, criminosos passaram a utilizar inteligência artificial e clonagem de voz para reproduzir áudios idênticos aos de advogados reais. “A vítima recebe um áudio no WhatsApp com a voz que ela reconhece como sendo do seu advogado, confirmando o pedido de pagamento. Isso elimina o último filtro intuitivo que muitas pessoas ainda tinham”, explicou.
OAB cobra operações policiais e reforça alerta à população
A preocupação da OAB Bahia aumentou diante da ausência de operações policiais de grande porte no estado. De acordo com Hermes Hilarião, a entidade tem mantido diálogo constante com a Secretaria de Segurança Pública, Ministério Público e Polícia Civil, mas cobra investigações mais robustas e operações contra quadrilhas especializadas.
“Nós ainda não tivemos uma grande operação aqui no âmbito da Bahia, embora a OAB tenha constantemente levado casos concretos às autoridades e pedido providências necessárias. Em outros estados já foram identificadas organizações criminosas atuando nesse tipo de golpe, mas aqui ainda esperamos um avanço maior das investigações”, disse.
Enquanto as investigações avançam lentamente, a OAB Bahia tenta combater o problema com campanhas educativas e canais de denúncia. A entidade lançou uma cartilha digital de orientação e também disponibilizou o e-mail denuncias@oab-ba.org.br para recebimento de casos.
Além disso, a advocacia brasileira passou a recomendar novos protocolos de segurança. A principal orientação é desconfiar de qualquer pedido de pagamento urgente feito por aplicativos de mensagens. “A regra simples é: antes de qualquer pagamento, ligue para o número que você já tem do seu advogado e não para o número que chegou na mensagem”, reforçou João Marques.
O vice-presidente da OAB Bahia também recomenda cautela máxima e afirma que nenhum processo judicial legítimo exige decisões instantâneas do cidadão. “Nenhum prazo processual em regra no nosso sistema de justiça é de um dia ou dois dias. Toda vez que o cidadão receber um contato dizendo que precisa
fazer um pagamento imediato, deve desconfiar. Na dúvida, entre em contato com um advogado de confiança e jamais faça transferências sem confirmar as informações”, alertou.
A OAB Nacional ainda disponibilizou a plataforma Confirma ADV, ferramenta que permite verificar se o advogado que entrou em contato realmente pertence aos quadros da entidade.
Para quem infelizmente caiu no golpe, a orientação é agir imediatamente. O primeiro passo é comunicar o banco e solicitar o acionamento do chamado Mecanismo Especial de Devolução, criado pelo Banco Central para tentar bloquear os valores transferidos via Pix. Conforme João Marques, a rapidez pode fazer diferença na recuperação do dinheiro.
“A primeira medida é acionar o banco para tentar bloquear a transação, pois existe uma janela curta para reversão. Também é fundamental registrar boletim de ocorrência, guardar mensagens, comprovantes e comunicar a OAB”, explicou o advogado.

