O Governo do Brasil criticou duramente a ação de “falsos patriotas envolvidos com o crime organizado” que pediram ao governo dos Estados Unidos que classificasse facções criminosas como terroristas internacionais para, assim, abrir caminho para uma intervenção estrangeira em nosso território.
As críticas foram divulgadas em nota oficial nesta sexta-feira (29), que cita diretamente “integrantes da família Bolsonaro” como “traidores”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também falou sobre o tema durante cerimônia em que celebrou a retomada da produção da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (Fafen).
Lula reagiu afirmando que uma intervenção estrangeira pode colocar em risco as riquezas minerais e a soberania do Brasil. “E eu tenho preocupação porque nós temos muitos minerais críticos, muitas terras raras, nós temos muito minério, nós ainda temos muito ouro, ainda temos muito diamante, temos a maior floresta tropical do mundo, 12% de água doce e, daqui a pouco, tem gente que diz que a Amazônia é nossa”, argumentou Lula, citando a possibilidade de um país estrangeiro pretender ocupar territórios brasileiros.
Lula ainda afirmou que as ações criminosas das facções são graves e estão sendo combatidas, mas não devem ser equiparadas a organizações terroristas nos termos da legislação estadunidense.
“Essa tal de Comando Vermelho e esse tal de PCC, eles são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia deste país. Eles são terroristas porque incomodam as famílias, incomodam o bairro, incomodam a cidade, roubam tudo que têm direito do povo, o direito do povo de viver livremente. Então, eles são terroristas e nós vamos combatê-los aqui dentro. Nós aprovamos uma lei antifacção e vamos combater com dureza”, disse.
No entanto, o presidente alertou que esses grupos criminosos não são o tipo de ameaça que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pretende enquadrar internacionalmente. “Trump quer o Osama Bin Laden”, contrapôs Lula, citando o terrorista saudita morto em 2011 em uma operação que envolveu atuação estadunidense em território estrangeiro.
Confira, na íntegra, a nota oficial do Governo do Brasil:
“O Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as demais facções e milícias que praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro.
O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação motivada por razões ideológicas, políticas e religiosas do terrorismo internacional.
A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras interferência em assuntos brasileiros.
É deplorável que, mais uma vez, integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país.
Aprovamos recentemente uma lei de combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a maior prevista em toda a legislação brasileira. O Governo do Brasil conduz o programa ‘Brasil contra o Crime Organizado’, que combate as facções e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima.
O crime organizado não respeita fronteiras e seu combate exige ação conjunta. Construímos, ao longo de décadas, parcerias com vários países, inclusive com os Estados Unidos. O Brasil apresentou, em 16 de abril deste ano, ao Departamento de Estado dos EUA, uma proposta focada na inteligência e na cooperação internacional, que inclui a ampliação dos controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas enviadas ao Brasil.
Qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e a nossa economia.
Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida de pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros.
Em resumo, trata-se de possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país.
A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança.”


