As discussões sobre racismo sempre ganham força em novembro, impulsionadas pelo calendário e pela pauta do Dia da Consciência Negra. Mas, nas empresas, a desigualdade não segue uma agenda simbólica: ela marca o cotidiano de trabalhadores negros durante o ano inteiro e vem adoecendo parte significativa dessa população.
Uma pesquisa da Diversitera, realizada entre 2022 e 2025 com 128 mil trabalhadores de 55 empresas, mostra que 28% dos profissionais negros já sofreram algum tipo de preconceito no ambiente corporativo. A lista inclui as chamadas microagressões, como piadas vexatórias e outros tipos de constrangimentos, mas também salário desigual, diferença no trato e distinção na hora da realização de atividades e em promoções.
A médica do trabalho e especialista em Saúde e Bem-Estar Ana Paula Teixeira lembra que essas práticas, quando associadas à cor da pele ou gênero, configuram assédio moral. “Independentemente da tonalidade da pele ou do gênero, o tratamento no ambiente de trabalho tem que ser igual. O assédio moral implícito nessas atitudes de preconceito revela uma problemática importante para discussão: como está a saúde mental das pessoas vítimas deste tipo de violência?”, questiona.
Segundo ela, os impactos aparecem de forma direta na saúde mental: ansiedade, esgotamento, crises de pânico e depressão são queixas frequentes de pessoas que enfrentam tanto microagressões diárias quanto situações de racismo explícito. Em muitos casos, o adoecimento leva ao afastamento. Entre as mulheres negras, que representam cerca de 25% da força de trabalho nas empresas avaliadas na pesquisa, a exposição é ainda maior.
Problema nacional
Os dados oficiais reforçam o que o que a pesquisa encontrou. Segundo o IBGE, em levantamento referente a 2023, a hora trabalhada por pessoas brancas foi, em média, 67,7% mais bem remunerada do que a de trabalhadores pretos e pardos. Ainda com base na PNAD Contínua de 2012 a 2023, estudos analisados pelo CEDRA mostram que a renda média da população negra equivale a apenas 58,3% da renda da população branca no trabalho principal.
O abismo também aparece nas oportunidades. De acordo com dados do DIEESE (2º trimestre de 2024), pessoas negras formam a maioria dos trabalhadores ocupados no Brasil, mas representam apenas 33,7% dos cargos de direção e gerência.
A desigualdade estrutural se estende ainda para o acesso ao emprego e sua estabilidade: o Boletim de Desigualdade Racial do Ministério do Trabalho e Emprego (2º trimestre de 2024) aponta que a taxa composta de desemprego e subocupação chega a 16,7% entre mulheres negras, mais que o dobro da registrada entre homens não negros (7,5%). A informalidade também segue lógica semelhante: 44,1% entre homens negros e 41% entre mulheres negras, índices consistentemente superiores aos dos trabalhadores brancos.
Esse cenário desigual influencia a saúde mental. Relatórios e estudos recentes mostram que a população negra tem maior prevalência de depressão, ansiedade e estresse crônico, além de enfrentar mais barreiras para acessar cuidados psicológicos adequados. É nesse terreno vulnerável que o racismo corporativo encontra espaço para produzir adoecimento.
Custo humano e corporativo
Para Ana Paula Teixeira, ignorar situações de assédio racial não atinge apenas quem sofre a agressão. “Essa atitude é inaceitável, pois causa frustração e sofrimento psicológico na pessoa afetada. Além disso, provoca afastamentos e impacta negativamente o próprio ambiente corporativo”, afirma.
As consequências aparecem nos indicadores internos: queda de produtividade, aumento do absenteísmo e maior rotatividade. Ou seja, o racismo, mesmo quando invisibilizado, também produz prejuízos econômicos para as empresas.
Caminhos possíveis para ambientes mais seguros
Entre as medidas consideradas essenciais, a especialista cita treinamento de gestores, fortalecimento das políticas internas de diversidade e criação de canais seguros de denúncia. Ela reforça que romper o silêncio é parte fundamental do processo. “É importante que as pessoas denunciem essas práticas com especialistas em Medicina do Trabalho ou Recursos Humanos das empresas”, orienta.
Idealizadora do Escutaris e autora do livro Quando o Trabalho Dói, Ana Paula discute assédio e outras condutas inadequadas no ambiente corporativo. Os temas ganham visibilidade em novembro, mas o desafio exige atenção constante: construir ambientes de trabalho que não apenas reconheçam a desigualdade racial, mas realmente atuem para superá-la.


