desentupidoraok

“Uniões consensuais” ultrapassam casamentos oficiais no país pela primeira vez

Pessoas sentadas em um banco, de costas, se abraçando
Número de uniões aumenta, mas casamentos oficiais diminuem, aponta Censo 2022 do IBGE. Foto: Freepik

Compartilhe essa matéria:

As formas de se relacionar no Brasil mudaram, e agora isso está oficialmente nos números. Pela primeira vez, morar junto sem papel passado se tornou a forma mais comum de união afetiva. O dado aparece nos resultados preliminares do Censo 2022, divulgados no último dia 05 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e confirma algo que o cotidiano já vinha mostrando: o casamento tradicional deixou de ser o formato dominante da vida conjugal brasileira.

Em 2022, 38,9% das uniões foram consensuais, enquanto 37,9% foram formalizadas com casamento civil e religioso. União consensual é o termo usado pelo IBGE para definir casais que moram juntos, em formato marital, mas sem o casamento civil ou religioso. O termo inclui tanto casais com união estável registrada em cartório quanto aqueles sem nenhum tipo de documentação.

No total, 51,3% da população de 10 anos de idade (idade mínima considerada na pesquisa) ou mais vivia em união conjugal em 2022. São 90,3 milhões de pessoas compartilhando vida, casa, rotina, contas, afetos e cansaços. Há 20 anos, essa proporção era menor: em 2000, menos da metade da população vivia em união.

Ao mesmo tempo em que os casamentos civis e religiosos recuam — passaram de 49,4% em 2000 para 37,9% em 2022 — as uniões consensuais se expandem. Esse movimento segue o que já se percebe nas ruas: relações que não dependem de cerimônia e cartório para existirem. Como explica a analista da pesquisa, Luciene Longo, “o aumento na proporção de uniões consensuais reforça as mudanças comportamentais que têm sido experimentadas na sociedade brasileira, quando as uniões no civil e religioso vêm perdendo espaço.”

Também cresceu, ao longo das décadas, o número de brasileiros que já viveram uma união e hoje não vivem mais. Em 2000, eram 11,9%. Em 2022, 18,6%. Separações, dissoluções e recomeços também fazem parte dessa fotografia. Ao mesmo tempo, caiu o percentual de pessoas que nunca viveram uma união, de 38,6% para 30,1%. EM outras palavras, há mais “casamentos”, mas também mais separações.

Região,  gênero e etinia


Os padrões variam pelo país. Santa Catarina lidera o ranking de pessoas vivendo em união (58,4%), enquanto Amapá tem a menor proporção (47,1%). Já o Rio de Janeiro é o estado com maior percentual de pessoas que passaram por dissolução de união (21,4%).

Há ainda diferenças importantes entre mulheres e homens. Até os 39 anos, elas se unem mais cedo e em maior número. A partir dos 60, a lógica se inverte: reflexo de maior expectativa de vida feminina e, muitas vezes, viuvez. “Com uma maior longevidade feminina, aumenta a proporção de mulheres que passam a viver sem seus cônjuges”, observa Luciene.

As escolhas de união também se diferenciam entre grupos raciais. As uniões consensuais são maioria entre indígenas (56%), pessoas pretas (46,1%) e pardas (43,8%). Já entre brancos e amarelos prevalece o casamento civil e religioso. Além disso, casamentos dentro dos próprios grupos raciais ainda são majoritários, embora venham diminuindo.

E os jovens?

Um recorte importante aparece entre jovens, pessoas de menor renda e pessoas sem religião. Entre pessoas que ganham até meio salário mínimo, mais da metade (52,1%) vive união consensual. Entre quem não tem religião, 62,5% também preferem esse tipo de união. O Censo mostra que, para muitos brasileiros, formalizar não é prioridade — viver junto é.

Outro movimento significativo está nas uniões homoafetivas. Em 2010, eram cerca de 58 mil. Em 2022, saltaram para 480 mil, representando 0,7% das unidades domésticas. Quase 80% desses casais vivem em união consensual. Há também aumento do nível de instrução e maior presença de casais homoafetivos formados por mulheres.

No fundo, essa fotografia revela um país onde o afeto segue vivo, mas menos preso a convenções. Não há um único desenho de família. Há escolhas diversas, marcadas por contexto, renda, crença e trajetória. O Censo só oficializa aquilo que muita gente já sabe: o amor brasileiro tem se reinventado.

Mais lidas