Dias após a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, sete governadores de direita se reuniram no Palácio Guanabara para anunciar a criação do chamado “Consórcio da Paz”.
A proposta, segundo os chefes de estado, pretende “integrar ações e compartilhar informações de inteligência, recursos financeiros e efetivos policiais no combate ao crime organizado”.
O Rio de Janeiro será a sede inicial do grupo, que deve reunir, além de Cláudio Castro (PL), os governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais; Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina; Eduardo Riedel (PP), do Mato Grosso do Sul; Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás; e a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). O governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou por videoconferência. Todos bolsonaristas e declaradamente a favor da política do “bandido bom é bandido morto”, que matou dezenas de jovens negros no Rio.
A criação do consórcio ocorre em meio à repercussão internacional da operação que transformou as favelas cariocas em cenário de massacre. Denúncias de execuções, tortura, decapitações e mutilações de suspeitos rendidos circulam desde a saída das tropas do local, quando a comunidade, amigos e familiares dos executados, se mobilizou para resgatar corpos que foram abandonados na mata próxima às comunidades, após do fim da operação. Mesmo assim, o governador Cláudio Castro elogiou a ação e a classificou como “perfeita”.
“Faremos um consórcio entre estados no modelo de outros que já existem, para dividir experiências, soluções e ações no combate ao crime organizado”, declarou Castro. Ao seu lado, o governador Romeu Zema reforçou o coro na defesa do assassinato de jovens periféricos: “As forças de segurança do Rio fizeram, no meu entender, uma operação que deve ser considerada a mais bem-sucedida”.
As declarações foram vistas com espanto por organizações de direitos humanos e por moradores das comunidades, que denunciam o que chamam de “carnificina”. Especialistas em segurança pública também criticam a lógica de confronto como política de Estado, apontando que operações isoladas e violentas não enfrentam as estruturas econômicas e sociais que alimentam o crime.
O nome “Consórcio da Paz”, portanto, surge com o peso do contraste, quase como uma piada de péssimo gosto. Enquanto o governo fluminense comemora o número de mortos, a palavra “paz” aparece esvaziada, associada mais à perseguição e violência do que à proteção de vidas.
Durante o encontro, os governadores afirmaram que o objetivo do grupo é atuar de forma prática e “sem politização”, mas usaram o espaço para criticar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública, apresentada pelo governo federal. O texto busca fortalecer o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e garantir maior integração entre as forças estaduais e federais. Para Ronaldo Caiado, de Goiás, a medida representa “intervenção direta nas polícias dos estados”.
Um dia antes, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, já havia anunciado a criação de um escritório emergencial no Rio para coordenar ações conjuntas com o governo estadual. A iniciativa prevê o reforço de 50 agentes da Polícia Rodoviária Federal, ampliação do efetivo de inteligência e transferência de dez presos para presídios federais.
No entanto, enquanto o governo federal fala em integração, e os governadores de direita falam em “paz”, o cenário nas comunidades segue marcado por luto, medo e silêncio.

