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Trump reconhece derrota em tentativa de intervir no Brasil, diz ex-embaixador dos EUA

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Em entrevista à BBC News Brasil, Thomas Shannon afirmou que o ex-presidente americano percebeu que não conseguiria influenciar a Justiça brasileira nem reverter a inelegibilidade de Bolsonaro. Diplomata elogiou a firmeza das instituições do país e o papel de Lula na reaproximação entre os dois governos.

Nem o poder político de Donald Trump, nem a histórica influência dos Estados Unidos sobre a América Latina foram capazes de contornar a força das instituições brasileiras. Segundo o ex-embaixador americano Thomas Shannon, o ex-presidente “entendeu que sua tentativa de intervir em processos criminais no Brasil e de interferir em um processo eleitoral no Brasil não iria prosperar”.

Diplomata de carreira, Shannon foi embaixador dos EUA no Brasil entre 2009 e 2013, nomeado por Barack Obama, e hoje atua como assessor sênior de política internacional no escritório Arnold & Porter, contratado pelo governo brasileiro para representar o país nas negociações do chamado “tarifaço” em Washington.

Em entrevista publicada pela BBC News Brasil, publicada neste sábado (25), ele disse que Trump recuou ao perceber que não teria como mudar o curso do processo judicial contra Jair Bolsonaro, tampouco pressionar o Brasil a rever decisões de suas instituições.

“Sim, [os pedidos de Trump para anular o julgamento de Bolsonaro] foram retirados — mas pelas ações das instituições brasileiras. Acho que Trump entendeu que sua tentativa de intervir em processos criminais no Brasil e de interferir em um processo eleitoral no Brasil não iria prosperar.”

Bolsonaro se torna página virada e o Brasil impõe seus limites

Para Shannon, o Brasil foi categórico em deixar claro que não aceitaria interferência externa. “O Brasil deixou muito claro que não iria ceder. E a instituição brasileira em questão — o Supremo Tribunal Federal — deixou muito claro que iria continuar com a acusação e manter a proibição de Bolsonaro concorrer nas próximas eleições. Uma vez que isso ficou evidente, o que os Estados Unidos poderiam fazer?”

O ex-embaixador reconhece que Trump manteve laços pessoais com Bolsonaro, mas enfatiza que o ex-presidente brasileiro deixou de ter relevância nas conversas diplomáticas entre os dois países.

“Trump não vai abandonar Bolsonaro. Ele o considera um amigo com visões políticas semelhantes. Mas é interessante notar que, em todas as comunicações com Lula, Bolsonaro não é mencionado. E não é mencionado porque Trump sabe que sua tentativa de proteger Bolsonaro da prisão e garantir que ele pudesse disputar eleições fracassou.”, explicou.

“Diante disso, o que resta fazer? Ele valoriza a lealdade e quer deixar claro que não vai abandonar Bolsonaro, mesmo que não possa mais ajudar”, completou Shannon.

Questionado se a tentativa de Trump de influenciar o julgamento de Bolsonaro havia chegado ao fim, o diplomata foi enfático: “Sim. Por que ele vai fracassar de novo quando já fracassou uma vez? Trump é astuto nesse ponto. Ele sabe quando não pode avançar em uma frente e procura outra.”

Encontro “casual” com Lula foi planejado

O início da reaproximação entre Brasil e Estados Unidos ocorreu durante o encontro de Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, que, segundo Shannon, foi “quase certamente planejado”.

“O encontro na ONU quase certamente foi planejado, se não pelo presidente Lula, com certeza pelo presidente Trump. Trump sabia que o Brasil sempre fala primeiro e os Estados Unidos em segundo. Então ele sabia que quase certamente encontraria Lula. Mas acho que não foi isso que motivou a mudança na postura”, afirmou.

O diplomata destacou que o gesto político dos dois líderes teve impacto imediato no tom da relação bilateral. “Considerando onde estava a relação em agosto e no início de setembro, acho que estamos em um momento muito positivo. Os gestos feitos pelo presidente dos Estados Unidos e depois pelo presidente do Brasil […] são gestos muito importantes, porque sinalizam para uma burocracia maior a direção que os dois líderes querem tomar na relação.”

Shannon elogiou a habilidade de Trump em transformar um impasse diplomático em um movimento político de conciliação: “Parabéns ao presidente Trump, porque o que ele fez, ao estilo Trump, foi transformar um problema bilateral entre dois países em um encontro pessoal positivo, e usou esse encontro para mudar o tom da conversa entre os dois países. No mundo da diplomacia, isso é um movimento muito inteligente.”

Tarifas afetaram consumidores e empresas nos EUA

Segundo o ex-embaixador, o recuo de Trump teve forte componente econômico. As sanções impostas ao Brasil afetavam consumidores e empresas americanas, especialmente aquelas com cadeias produtivas integradas ao mercado brasileiro.

“As tarifas não apenas teriam impacto no Brasil, mas também nos Estados Unidos — não apenas nos consumidores americanos, mas nas empresas americanas que dependem de produtos brasileiros ou que têm empresas brasileiras em suas cadeias de suprimento. E elas teriam que aumentar os preços de seus produtos.”, esclareceu o diplomata.

“Isso se tornaria cada vez mais controverso e desafiador, especialmente se o Brasil não desse sinais de ceder — e o Brasil não deu sinais de ceder. Acho que Trump entendeu que foi mal informado ou induzido ao erro [ao sancionar o Brasil] e que caberia a ele tirar os EUA dessa situação e tentar criar uma solução.”

O diplomata destacou ainda o papel decisivo do setor privado americano na mudança de rumo da Casa Branca: “A principal fonte de informação para o presidente provavelmente foram empresas americanas com acesso direto à Casa Branca. Mas também há empresas brasileiras, com forte presença e investimentos nos EUA, que têm acesso — se não ao presidente, a pessoas ao seu redor. Isso é uma lição importante para a diplomacia brasileira: às vezes, a comunicação mais eficaz não é de governo para governo, mas do setor privado para o governo.”

Lula consolida liderança e reforça soberania

Shannon afirmou que o governo Lula lidou da única forma possível diante da pressão americana: resistindo e reafirmando a autonomia nacional. “Acho que o Brasil seguiu o único caminho possível. Os brasileiros nunca permitiriam que uma potência estrangeira se inserisse em um processo criminal ou determinasse quem poderia ou não ser candidato. A questão era conseguir resistir e manter essa posição. Sempre acreditei que daria certo.”

Ele acrescentou que o posicionamento firme de Lula ajudou a fortalecer a imagem do país no cenário internacional e teve reflexos internos. “Parte da explicação dada a Trump sobre por que ele não conseguiria o que queria foram os dados das pesquisas, que mostraram que as tarifas tiveram um impacto negativo dramático para Bolsonaro e sua família. E também que, além de estabilizar Lula nas pesquisas, permitiram que ele subisse pela primeira vez em muito tempo.”

Tarifas podem ser revistas, mas sanções continuam

Embora a aproximação entre os governos tenha ganhado força, Shannon avalia que as sanções do tipo Magnitsky contra ministros do STF devem ser mantidas por enquanto. “Vamos ver, pode ser que encontrem uma saída, espero que sim. Mas acho que a principal preocupação no momento é o impacto econômico das tarifas.”

Sobre o futuro das medidas comerciais, ele se mostrou otimista: “Depende do ritmo das negociações. E, se não forem retiradas, vão ser reduzidas drasticamente ou vários produtos ficarão isentos. Tão certo quanto alguém poderia estar sobre qualquer coisa no mundo. Afinal, se nada acontecer com as tarifas, qual foi o motivo dessa mudança na postura?”

Um novo capítulo nas relações Brasil – EUA

O ex-embaixador afirmou ainda que o interesse americano pelo Brasil tende a crescer, especialmente diante da tensão com a Venezuela e da influência chinesa na América do Sul. “Se os EUA mantivessem um confronto prolongado com o Brasil, isso abriria espaço para a China se aproximar ainda mais do país. O Brasil historicamente evitou ser dependente de uma única potência. […] Mas os EUA e suas empresas perderiam oportunidades valiosas — e isso seria muito ruim.”

Shannon concluiu destacando o papel invisível, mas essencial, do Brasil na economia americana: “O interessante sobre a presença do Brasil nos Estados Unidos é que ela é, em grande parte, invisível para o americano médio. Mas o Brasil faz parte da vida cotidiana de muitas pessoas. Está no café que bebemos, nos hambúrgueres e no frango que comemos, nos voos regionais em aviões menores fabricados por empresas como a Embraer.”

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