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FOME: 1 a cada 4 famílias brasileiras vive com insegurança alimentar. Na Bahia, número é maior

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Na Bahia, 37,8% dos domicílios estão em situação de insegurança alimentar, percentual bem acima da média nacional (Foto: Sergio Amaral/Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social)

A fome e a insegurança alimentar ainda atingem milhões de brasileiros. Dados divulgados nesta quinta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que um em cada quatro domicílios do país (24,2%) convive com algum grau de insegurança alimentar — o equivalente a 18,9 milhões de lares. Apesar da queda em relação a 2023, quando o índice era de 27,6%, o número segue elevado e revela que quase 40 milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para garantir alimentação adequada.

O levantamento integra o módulo de Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2024, realizado em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Segundo o IBGE, 2,2 milhões de famílias saíram dessa condição em um ano, o que indica uma melhora, mas também reforça as desigualdades regionais e sociais do país.

Bahia entre os estados com piores índices

Na Bahia, 37,8% dos domicílios estão em situação de insegurança alimentar, percentual bem acima da média nacional. O estado figura entre os que apresentam os índices mais altos do país, ao lado de Pará (44,6%), Roraima (43,6%) e Amazonas (38,9%). No Nordeste, a taxa média é de 34,8%, a segunda maior entre as regiões, perdendo apenas para o Norte (37,7%).

Os números mostram que a fome segue concentrada nas regiões historicamente mais pobres, e o impacto é ainda mais severo no interior. Enquanto 31,3% dos lares rurais brasileiros convivem com insegurança alimentar, nas cidades a taxa é de 23,2%. “Esses dados vão um pouco contra a nossa intuição de que na área rural a insegurança alimentar seria menor, porque as pessoas produzem seus alimentos. Entretanto, muitos desses domicílios têm renda mais baixa e crianças em casa, o que limita a variedade e a quantidade de alimentos”, explica Maria Lucia Vieira, analista da pesquisa.

Nordeste e desigualdades persistentes

Em termos absolutos, o Nordeste concentra 7,2 milhões de domicílios com algum grau de insegurança alimentar, o maior número do país, seguido pelo Sudeste (6,6 milhões). Isso significa que, mesmo com avanços econômicos recentes, a região ainda carrega as marcas da desigualdade social.

No grau mais grave — quando a fome é uma experiência presente na casa, inclusive entre crianças — o Nordeste registra 4,8% dos lares nessa condição.

Mulheres e população negra são maioria entre os afetados

A pesquisa revela que a fome tem gênero e cor. Quase 60% dos lares em insegurança alimentar têm mulheres como responsáveis, enquanto os homens respondem por 40,1%. No nível moderado, a diferença é ainda maior: 61,9% dos domicílios chefiados por mulheres enfrentam restrição alimentar.

A desigualdade racial também se evidencia: 54,7% dos responsáveis por lares em insegurança alimentar são pessoas pardas, 15,7% pretas e apenas 28,5% brancas. Nos casos mais graves, a diferença aumenta — 56,9% dos lares afetados são chefiados por pessoas pardas, mais que o dobro da proporção de brancos (24,4%).

Esses dados indicam que as famílias negras e chefiadas por mulheres continuam sendo as mais vulneráveis à fome. Para Maria Lucia Vieira, o perfil social dos lares afetados reflete a intersecção entre desigualdade de renda, gênero e raça: “Os domicílios chefiados por mulheres e pessoas negras concentram maior informalidade no trabalho e menores rendimentos, o que agrava a insegurança alimentar”, afirma.

Fome e renda: o peso do bolso no prato

A relação entre fome e renda é direta. Dois em cada três domicílios (66,1%) com rendimento de até um salário mínimo per capita vivem com insegurança alimentar. Entre os lares com rendimentos mais baixos, até meio salário mínimo, 71,9% estão em condição moderada ou grave.

Já nas famílias com renda acima de dois salários mínimos, a proporção cai drasticamente: apenas 3,9% estão em insegurança alimentar moderada ou grave. Mesmo assim, a renda não elimina totalmente o risco: “As classes mais baixas são as mais atingidas, mas a inflação dos alimentos e o custo de vida impactam todas as faixas de renda. A segurança alimentar está diretamente ligada à estabilidade econômica”, explica Maria Lucia.

Escolaridade e trabalho também influenciam

O nível de escolaridade dos responsáveis pelo domicílio também aparece como fator determinante. Em 65,7% dos lares com insegurança alimentar grave, o responsável tinha no máximo o ensino fundamental completo. Em contraste, entre as famílias em segurança alimentar, 64,9% têm responsáveis com, pelo menos, o ensino médio incompleto.

A posição no mercado de trabalho reforça essa diferença. Entre os domicílios em insegurança alimentar, 17% dos responsáveis trabalham por conta própria, 8,6% são empregados sem carteira assinada e 6,5% são trabalhadores domésticos — grupos marcados pela informalidade e baixa renda. Já nas famílias em segurança alimentar, predominam trabalhadores com carteira assinada no setor privado (23,4%).

Crianças ainda são as mais vulneráveis

A pesquisa mostra que a fome atinge com mais força as crianças e adolescentes. Entre a população de 0 a 4 anos, 3,3% convivem com insegurança alimentar grave, proporção que sobe para 3,8% entre os jovens de 5 a 17 anos. Já entre idosos, o percentual cai para 2,3%. “As famílias com crianças pequenas tendem a ter mais dependentes e rendimentos menores, o que aumenta o risco de restrição alimentar”, comenta a pesquisadora.

Queda nacional ainda não elimina o problema

Apesar da melhora nacional, o cenário ainda exige atenção. O Brasil tinha 22,6% de domicílios com insegurança alimentar em 2013 — o menor índice da série histórica —, e hoje está em 24,2%. A fome grave, embora em queda, ainda atinge 3,2% das famílias brasileiras, o que equivale a 2,5 milhões de lares.

“Os avanços existem, mas a insegurança alimentar segue presente em proporções elevadas. É um desafio que vai além da renda — envolve acesso, qualidade e estabilidade da alimentação”, reforça Maria Lucia Vieira.

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