A alimentação dos brasileiros mudou de forma profunda nas últimas décadas. E para pior. A participação dos chamados ultraprocessados na dieta nacional mais que dobrou desde os anos 80, passando de 10% para 23% das calorias consumidas.
O alerta vem de uma série de artigos publicados nesta terça-feira (18) na revista científica The Lancet, produzida por mais de 40 pesquisadores liderados pela Universidade de São Paulo (USP). O conjunto de estudos avalia dados de 93 países e mostra que a tendência brasileira é parte de um movimento global e preocupante.
O perigo dos ultraprocessados
Os especialistas explicam que, por trás da alta, há transformações que afetam o cotidiano das famílias brasileiras: refeições rápidas substituindo comida caseira, longas jornadas de trabalho, oferta maior de produtos prontos e estratégias de marketing que influenciam escolhas. Mas a mudança não é apenas comportamental. Ela está relacionada ao avanço de grandes grupos empresariais, que moldam o sistema alimentar mundial.
“O consumo crescente de ultraprocessados está reestruturando as dietas em todos os continentes”, afirma Carlos Monteiro, pesquisador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Nupens) e líder da série. “Grandes corporações globais priorizam produtos altamente lucrativos e utilizam marketing e lobby político que dificultam políticas públicas de alimentação adequada”, explica.
Entender o que são ultraprocessados e por que eles são tão ruins é o primeiro passo para pensar em uma mudança. O termo se popularizou após 2009, com a criação da classificação nova, desenvolvida por pesquisadores brasileiros. Ela agrupa os alimentos pelo grau do quanto eles são mais ou menos naturais. Quanto menos “comida de verdade”, mais processado é o alimento.
Segundo Monteiro, o objetivo da classificação é fornecer uma lente clara para compreender o impacto da indústria alimentícia no padrão alimentar. “O processamento deixou de ser um meio de preservar alimentos e passou a ser a criação de substitutos — feitos de ingredientes baratos e aditivos — que simulam comidas caseiras”, diz.
Essa substituição tem consequências diretas. Evidências reunidas pela série confirmaram o que todo nutricionista sério já prega há vários anos: uma revisão sistemática de 104 estudos de longo prazo revelou que 92 deles apontaram risco aumentado de doenças crônicas, como obesidade, diabetes tipo 2, câncer colorretal, doenças cardiovasculares e problemas inflamatórios.
Uma “praga” mundial
A tendência observada no Brasil também se repete em outros países. Dos 93 analisados, apenas o Reino Unido não apresentou crescimento: o consumo permanece estável em cerca de 50% da dieta. Os Estados Unidos lideram o ranking, com mais de 60% das calorias provenientes desses produtos. Em países como Espanha, Coreia do Sul, China e Argentina, o avanço foi acelerado: em três décadas, alguns praticamente triplicaram o consumo.
Mesmo em regiões com renda alta, as diferenças culturais modulam esse impacto. O Canadá, por exemplo, chega a 40%, enquanto Itália e Grécia se mantêm abaixo de 25%, preservando tradições culinárias que priorizam alimentos frescos.
A série lembra que esse tipo de produto começou a ganhar espaço em países ricos após a Segunda Guerra Mundial, impulsionado por inovações industriais. Mas foi a globalização, a partir dos anos 80, que consolidou os ultraprocessados como um fenômeno mundial. No mesmo período, cresceram também as taxas de obesidade e doenças relacionadas à alimentação. Não é coincidência. Vale lembrar que as crianças são um grupo de risco, já que um volume grande desse tipo de alimento é pensado para atrair o público infantil.
Soluções
Para enfrentar o problema, os pesquisadores defendem medidas coordenadas entre governos, sociedade e indústria. Entre as recomendações, está a rotulagem clara de aditivos como corantes e aromatizantes, e a identificação explícita de excesso de gordura, açúcar ou sal, que se tornou lei no Brasil em 2023.
Outra proposta é restringir a presença desses produtos em instituições públicas, como escolas e hospitais, área na qual o Brasil é citado como exemplo por causa do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que já reduz a oferta de ultraprocessados e exige que 90% dos alimentos servidos sejam frescos ou minimamente processados a partir de 2025.
As ações sugeridas incluem também limites mais rígidos à publicidade infantil e políticas para ampliar o acesso a alimentos in natura, especialmente entre famílias de baixa renda. Uma das alternativas estudadas é a tributação de determinados ultraprocessados para financiar programas de distribuição de alimentos frescos.
Por fim, os cientistas enfatizam que a responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente ao indivíduo. Para eles, o cenário atual é resultado do poder econômico das grandes corporações alimentícias, que movimentam cerca de 1,9 trilhão de dólares por ano. Esse domínio, afirmam, influencia hábitos de consumo, regulações e até a cultura alimentar.
“O conjunto das evidências mostra que substituir a comida de verdade por ultraprocessados está no centro do aumento de diversas doenças crônicas”, concluem os autores. Segundo eles, restaurar dietas baseadas em alimentos integrais e preparações culinárias “já está atrasado” e deve orientar as políticas de saúde pública daqui para frente.

