Uma cena de apenas 15 segundos viralizou nas redes sociais desde a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. No vídeo, uma mulher branca e loira, de cerca de 50 anos, chora enquanto caminha por uma avenida e desabafa: “Prenderam o Bolsonaro, eu tava orando tanto, mas tudo que eu profetizei de mal pro Lula, Deus mandou foi pro Bolsonaro. Tá difícil ser crente.” Supostamente, trata-se de uma pastora.
A gravação, que circula tanto em páginas de humor quanto em perfis jornalísticos, se espalhou rapidamente. Mas, apesar da ampla repercussão, não há qualquer confirmação sobre a identidade da mulher, sua localização ou mesmo a origem do vídeo. A equipe do JornalCFF tentou rastrear a publicação, mas encontrou apenas reproduções idênticas, sempre acompanhadas da mesma legenda: “PASTORA DESABAFA: ‘TUDO QUE PROFETIZEI DE MAL PARA O LULA DEUS MANDOU PARA O BOLSONARO’”.
Sem informações verificáveis, não é possível afirmar se ela é pastora, membro de alguma igreja específica ou mesmo se o vídeo é uma sátira. O único dado confirmado é o conteúdo do próprio vídeo. E é justamente ele que revela um ponto sensível dentro do movimento de fiéis bolsonaristas.
Deus dá, Deus tira
Em 2021, diante da possibilidade de um processo de impeachment, Bolsonaro, bradou aos quatro ventos: “Só Deus me tira dessa cadeira”. Sem querer ele citou Daniel 2; 21, que diz que “Deus é quem estabelece reis e destrona reis”. E de lá para cá, entre derrota eleitoral, adoecimento, descoberta do plano de golpe condenação e, mais recente, prisão preventiva, a vida do “messias” só piorou. Perdeu cargo, prestígio, apoiadores políticos e até a saúde. A sequência dos fatos não apenas desmonta a narrativa de “homem de Deus” como serve para abrir os olhos dos cristãos que enxergavam no ex-presidente um escolhido espiritual.
O desabafo da mulher simboliza esse choque de realidade: as profecias não se cumpriram, as correntes de oração não impediram investigações e Deus não atendeu aos clamores direcionados para livrar Bolsonaro das consequências jurídicas dos seus crimes. Para muitos fiéis, esse movimento pode representar um abalo profundo não apenas político, mas teológico. Afinal, se aquilo que era anunciado como promessa divina não se concretiza, o que isso diz sobre o ex-presidente e sobre todos os líderes religiosos que garantiram que ele era um homem de Deus. E o que isso revela sobre a instrumentalização da fé no debate público?.
Seja genuíno ou satírico, o vídeo ecoa um questionamento real. E deixa uma pergunta pairando no ar para os que se dizem verdadeiramente cristãos: quando a fé é convocada para proteger um homem, e não um princípio, o que acontece quando o homem cai?
Sem Deus e sem pátria. Pelo menos lhe restou a família.
Veja o vídeo:

