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SAÚDE MENTAL: Transtorno bipolar pode levar anos para ser diagnosticado; entenda por que a doença é confundida com depressão

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O transtorno bipolar pode ser confundido com outras condições psiquiátricas (Imagem: Vectorium/Shutterstock)

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Levar anos para descobrir que tem transtorno bipolar não é uma situação rara. Estudos internacionais apontam que a doença pode permanecer sem diagnóstico ou sem tratamento adequado por cerca de uma década, em média. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou uma média de 9,1 anos de transtorno bipolar sem diagnóstico ou tratamento adequado, enquanto outro estudo de revisão identificou mediana de 6,7 anos para o diagnóstico.

A demora ajuda a explicar por que tantas pessoas passam por diferentes diagnósticos e tratamentos antes de descobrir a condição. O problema ganha visibilidade também a partir de relatos de celebridades, como o da cantora Selena Gomez, que já falou publicamente sobre ter recebido diagnósticos incorretos antes de compreender melhor sua condição.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 37 milhões de pessoas viviam com transtorno bipolar no mundo em 2021, o equivalente a 0,5% da população. A entidade também alerta que muitas pessoas com a condição são diagnosticadas incorretamente ou permanecem sem tratamento. O transtorno bipolar é caracterizado por episódios de depressão alternados com períodos de mania ou hipomania, que podem provocar mudanças importantes no humor, na energia, na atividade e no comportamento.

Por que o diagnóstico pode demorar?

Um dos principais obstáculos está justamente na maneira como a doença costuma aparecer. Em muitos casos, os primeiros episódios percebidos são de depressão. Sem uma investigação mais detalhada sobre o histórico do paciente, o quadro pode ser interpretado como depressão unipolar.

Uma revisão publicada em 2017, por exemplo, analisou pacientes inicialmente diagnosticados com depressão e que posteriormente receberam diagnóstico de transtorno bipolar. Entre aqueles que tiveram a mudança diagnóstica, o intervalo médio até o reconhecimento da bipolaridade foi de 8,74 anos.

Segundo o psiquiatra Edson Kruger Batista, da ViV Saúde Mental e Emocional, o atraso pode comprometer a evolução clínica. “Quando a bipolaridade não é identificada precocemente, o paciente pode permanecer por anos em tratamentos pouco efetivos. Isso prolonga o sofrimento e pode contribuir para a piora do curso da doença ao longo do tempo”, explica. Durante esse período, os impactos podem atingir diferentes áreas da vida, incluindo trabalho, estudos, relações familiares e vínculos sociais, além de aumentar o risco de agravamento dos episódios.

Nem sempre a mania é fácil de perceber

Outro fator que dificulta a identificação é a variedade de manifestações da doença. Nem todas as pessoas apresentam episódios de mania facilmente reconhecíveis. Na hipomania, por exemplo, alterações como aumento da energia, menor necessidade de sono, maior produtividade, aceleração dos pensamentos ou aumento da disposição podem ser interpretadas inicialmente como uma fase de maior rendimento ou bem-estar.

A doença também apresenta diferentes formas clínicas, incluindo os transtornos bipolares tipo I e tipo II, além de outras manifestações dentro do espectro bipolar. Por isso, o diagnóstico não deve ser feito a partir de um episódio isolado. “O diagnóstico não se baseia em um episódio isolado, mas na análise da trajetória do paciente ao longo do tempo. Sem essa reconstrução, aumenta o risco de confusão com outros transtornos, como depressão ou ansiedade”, destaca Batista.

O que muda quando a bipolaridade é identificada

O reconhecimento correto da condição permite que o tratamento seja planejado de acordo com suas características. A OMS aponta que existem opções eficazes de cuidado, incluindo medicamentos e intervenções psicossociais, que podem ajudar a manter a estabilidade. O acompanhamento costuma ser contínuo e pode envolver medicação, psicoterapia e monitoramento ao longo do tempo. O objetivo é controlar os episódios, preservar a funcionalidade e melhorar a qualidade de vida.

Para o especialista, quanto menor o intervalo entre o início dos sintomas e a identificação correta da doença, maior a possibilidade de estabelecer um cuidado adequado. “O principal ganho está em reduzir o tempo até o diagnóstico correto. Esse é o ponto de inflexão que muda a trajetória do paciente”, afirma.

Estigma também atrasa a busca por ajuda

Além das dificuldades clínicas, o transtorno bipolar ainda enfrenta obstáculos relacionados ao estigma, à desinformação e ao acesso a profissionais especializados. A própria OMS destaca que pessoas com a condição podem enfrentar discriminação e que muitos pacientes permanecem sem o tratamento recomendado.

Esse cenário pode alimentar um ciclo de instabilidade, com consequências para a vida profissional, os relacionamentos e a saúde em geral. Por isso, especialistas defendem que falar sobre transtorno bipolar não deve se limitar a campanhas de conscientização. O desafio também está em ampliar o conhecimento sobre os diferentes sinais da doença, melhorar a avaliação clínica e facilitar o acesso ao cuidado especializado.

Importante: mudanças de humor, ansiedade, períodos de muita energia ou episódios depressivos isolados não significam, por si só, transtorno bipolar. O diagnóstico depende de avaliação profissional e da análise do histórico do paciente ao longo do tempo.

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