Camaçari aprendeu a ser reconhecida pelo barulho das fábricas. Desde a implantação do Polo Industrial, inaugurado em 1978, a cidade passou a ocupar lugar central na história da indústria baiana. Agora, outra estrutura de grande porte começa a redesenhar sua paisagem: o City Football Academy Bahia, o novo centro de treinamento do Bahia, na região de Abrantes.
O investimento anunciado pelo City Football Group é de R$ 300 milhões. O complexo será erguido em uma área de aproximadamente 560 mil metros quadrados, às margens da Via Metropolitana. As obras foram oficialmente iniciadas em fevereiro deste ano, com o lançamento da pedra fundamental, e a previsão divulgada para a entrega é dezembro de 2027.
A estrutura prevista inclui 12 campos de futebol, hotel para os atletas, alojamento para a base, centro administrativo e um miniestádio com capacidade para mil pessoas. O espaço reunirá o futebol profissional masculino, a equipe feminina e as categorias de base. A proposta é fazer do CFA o segundo maior centro de treinamento da rede do Grupo City, atrás apenas da estrutura do Manchester City, na Inglaterra.
“Um dia histórico para nós, o Bahia, o povo baiano e o futebol baiano. Celebramos um novo capítulo do crescimento do clube. No caminho de crescimento do Bahia, o Centro de Treinamento é questão estratégica. Não são apenas prédios e campos. É a casa do Bahia. É o local onde vão se formar os atletas do Bahia, não apenas do ponto de vista técnico, mas pessoal”, afirmou Ferran Soriano, CEO do City Football Group, durante a apresentação do projeto.
A ESCOLHA PASSOU PELA LOGÍSTICA
A decisão por Camaçari não foi apenas uma busca por terreno amplo. O endereço escolhido fica a cerca de 15 minutos do Aeroporto Internacional de Salvador e a 40 minutos da Arena Fonte Nova, segundo as estimativas apresentadas pelo clube. A localização também fica mais próxima da capital do que a Cidade Tricolor, atual centro de treinamento, em Dias d’Ávila.
Durante mais de um ano de procura, o Bahia avaliou outros locais, entre eles o Parque de Exposições e um terreno na Avenida Orlando Gomes, em Piatã. A escolha pela Via Metropolitana se apoiou, sobretudo, na possibilidade de reduzir deslocamentos de atletas e funcionários e facilitar a conexão entre o aeroporto, o estádio e o centro de treinamento.
“A principal razão é a questão logística. A gente precisava trazer um centro de treinamento mais perto da Fonte Nova e também do aeroporto”, explicou Raul Aguirre, CEO do Bahia. O treinador Rogério Ceni também havia destacado a importância de diminuir o tempo de viagem, especialmente para permitir que jogadores retornem de compromissos fora de Salvador e consigam treinar no mesmo dia.
A proximidade dos principais pontos da rotina do clube é um ganho prático. Mas o projeto também altera a relação do Bahia com o território: o clube deixa de concentrar sua estrutura esportiva em Dias d’Ávila e passa a ocupar uma área ligada a um eixo de expansão urbana da Região Metropolitana de Salvador.
A REFERÊNCIA DE MANCHESTER
A prefeitura de Camaçari quer que o centro seja parte de uma transformação mais ampla. Em maio, o prefeito Luiz Caetano esteve na Inglaterra e se reuniu com representantes do Grupo City para conhecer o modelo de desenvolvimento urbano associado ao Manchester City. Ao voltar, defendeu que a parceria também gere efeitos para a cidade baiana.
“A reunião com o Grupo City foi para discutir como eles fizeram lá em Manchester. Houve um desenvolvimento da cidade a partir do esporte. Foi algo extraordinário, em uma parceria público-privada, onde o setor privado teve uma participação muito forte nesse crescimento. Quero que eles façam aqui em Camaçari algo semelhante ao que fizeram na Inglaterra. Foi uma viagem muito proveitosa”, disse Caetano.
A comparação expressa uma ambição da gestão municipal. Para que ela se confirme, porém, será preciso observar o que acontece além dos muros do CFA: quantos empregos serão criados e destinados a moradores da região, quais serviços chegarão ao entorno e como o poder público vai responder às novas demandas de mobilidade, saneamento e infraestrutura. O centro de treinamento pode ser um ponto de partida para mudanças, mas seu impacto urbano dependerá de decisões públicas e privadas que ainda estão por vir.
Um passo concreto nessa relação foi anunciado no último sábado (26). Prefeitura e Grupo City assinaram um acordo que prevê R$ 12 milhões para reformar o Estádio Municipal Fernando Ferreira Lopes. A obra inclui a troca do gramado natural por um sintético com padrão FIFA, melhorias na drenagem, iluminação e vestiários. O prazo estimado é de 15 meses. O equipamento poderá atender competições, projetos esportivos e atividades das equipes de base e feminina VALORIZAÇÃO NO ENTORNO
O CFA não é o único projeto previsto para a área. O relatório anual da Bahia SAF informa que está planejado, em frente ao centro de treinamento, um condomínio residencial com aproximadamente 450 mil metros quadrados. O empreendimento abre uma discussão sobre valorização imobiliária e a formação de um novo eixo urbano em Abrantes.
A dimensão do terreno ajuda a mostrar que a transformação planejada ultrapassa o futebol. A área residencial poderá atrair moradores, comércio e novos serviços. Ao mesmo tempo, a valorização das terras pode pressionar preços e ampliar a disputa pelo uso do solo. Até aqui, a documentação consultada apresenta o projeto como previsto, mas não traz uma estimativa de valorização imobiliária nem permite afirmar que os preços já subiram por causa do CFA.
A mudança de escala é significativa para o Bahia. O clube ganhará uma estrutura conectada à rede internacional do Grupo City e pensada para desenvolver atletas em diferentes etapas. Para Camaçari, a chegada do CFA representa a entrada de um equipamento esportivo de alcance mundial numa cidade cuja identidade pública foi construída, em grande parte, pela indústria.
O próximo capítulo será medido dentro e fora de campo: na formação de jogadores, na integração com as equipes da cidade e nos benefícios que alcançarão quem vive no entorno. O investimento já redesenha o mapa esportivo da Bahia. O desafio será fazer com que essa obra também produza resultados concretos para Camaçari.

