Uma pesquisa brasileira que está cada vez mais perto de transformar a vida de pessoas com paraplegia causada por lesão medular deu um passo decisivo rumo à aplicação em pacientes. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dos estudos clínicos em humanos com a polilaminina, substância desenvolvida a partir de pesquisas nacionais e apontada como uma terapia promissora para a recuperação de movimentos após traumas na medula espinhal.
A autorização, concedida nesta segunda-feira (5), marca o início da fase 1 dos testes clínicos e representa uma nova possibilidade para pessoas que perderam movimentos do corpo em decorrência de acidentes ou outras lesões graves. O estudo será patrocinado pela empresa Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos.
A polilaminina é baseada na laminina, uma proteína natural que atua no sistema nervoso estimulando os axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão dos sinais que permitem os movimentos. A substância é extraída da placenta humana e será aplicada em dose única, diretamente no local da lesão, durante procedimento cirúrgico.
Resultados obtidos em estudos experimentais indicaram recuperação parcial ou total dos movimentos em pacientes lesionados que receberam a substância, o que levou à autorização para o avanço das pesquisas em humanos.
Em entrevista à TV Brasil, a pesquisadora responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou que o tempo entre a lesão e a aplicação do medicamento é um fator decisivo para os resultados.
“A situação ideal é que seja o mais rápido possível, tanto para a polilaminina quanto para a própria cirurgia”, afirmou. Segundo ela, a maioria dos pacientes com lesão medular precisa passar por uma cirurgia de descompressão, já que o inchaço provocado pelo trauma faz com que a medula fique pressionada contra o canal vertebral. “Quase sempre tem que fazer uma descompressão”, explicou.
A primeira fase do estudo clínico contará com cinco pacientes, com idades entre 18 e 72 anos, que sofreram lesões completas da medula espinhal na região torácica há menos de 72 horas e que tenham indicação cirúrgica. Nesta etapa inicial, o foco não é medir a eficácia do medicamento, mas avaliar a segurança do uso da polilaminina em humanos.
Caso os resultados sejam positivos, a pesquisa poderá avançar para as fases dois e três, quando o objetivo passa a ser comprovar a eficácia da substância na recuperação de movimentos e funções perdidas após a lesão.
Embora o mecanismo de ação da polilaminina ainda não seja totalmente compreendido, a substância é considerada uma das apostas mais promissoras da ciência brasileira para o tratamento de traumas na medula espinhal. O tema integra a lista de projetos estratégicos do Comitê de Inovação da Anvisa, criado em 2025 para acompanhar e apoiar a avaliação de tecnologias inovadoras no país.

