
Em rara entrevista concedida ao portal estadunidense The Washington Post, publicada nesta segunda (18), o ministro Alexandre de Moraes afirmou que “não existe a menor possibilidade de recuar nem um milímetro” nas ações que julgam a trama golpista que teria tentado manter Jair Bolsonaro no poder. “Faremos o que é certo: vamos receber a acusação, analisar as provas; quem tiver de ser condenado será condenado, e quem tiver de ser absolvido será absolvido”, disse o relator dos casos no Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo o jornal, Moraes relatou que assistia a um jogo do Corinthians quando o celular começou a notificar vários alertas: Bolsonaro teria desobedecido a ordem de ficar fora das redes. O ministro reagiu imediatamente e determinou a prisão domiciliar do ex-presidente, medida de 4 de agosto que o jornal norte-americano descreve como emblema do seu estilo de “nunca ceder; sempre avançar”.
“Eu entendo que, para a cultura norte-americana, é mais difícil entender a fragilidade da democracia, porque nunca houve um golpe lá. Mas o Brasil teve anos de ditadura sob [o presidente Getúlio] Vargas, outros 20 anos de ditadura militar e inumeráveis tentativas de golpe. Quando você é mais atingido por uma doença, você desenvolve anticorpos mais fortes e procura uma vacina preventiva”, destacou o ministro ao jornal, que o descreveu como “o juiz que se recusa a ceder à vontade de Trump”.
Como Moraes é visto fora do Brasil
De acordo com o The Washington Posto, Moraes é visto internacionalmente como um “xerife da democracia”, figura que ganhou projeção global por decisões amplas em defesa da ordem constitucional — do bloqueio de plataformas que descumpriram ordens judiciais à responsabilização de autoridades após os ataques de 8 de janeiro de 2023. O texto também registra críticas: para parte dos interlocutores ouvidos e para autoridades do governo Trump, Moraes teria extrapolado, tornando-se “a face mundial da censura judicial”.
A reportagem detalha ainda o ambiente de pressão internacional: o governo dos EUA revogou o visto do ministro e aplicou sanções com base na Lei Magnitsky, em reação a decisões que a Casa Branca classificou como “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Moraes atribuiu a deterioração do clima a “narrativas falsas” e desinformação, incluindo a atuação do deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA. “Essas narrativas falsas acabaram envenenando a relação [entre Brasil e EUA] — narrativas falsas apoiadas por desinformação espalhada nas redes sociais. Então o que precisamos fazer, e o que o Brasil está fazendo, é esclarecer as coisas”, afirmou.

