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DEBATES: O feminicídio político tenta matar a voz das mulheres antes de matar seus corpos

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Réplicas de placas de rua com nome da Marielle Franco em frente à Câmara do Rio, na Cinelândia (Fernando Frazão/Agência Brasil)

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Há quem insista em tratar a violência política de gênero como um efeito colateral da disputa democrática, mas não é. O que vivemos no Brasil é parte de um projeto organizado para expulsar mulheres dos espaços de poder. Em minha pesquisa de pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense, nomeei esse processo de feminicídio político: Um estudo sobre a vida e a morte de Marielles.

O termo busca nomear a expressão mais extrema da violência política de gênero: um processo sistemático de eliminação das mulheres da vida política, no qual diferentes formas de violência – simbólica, institucional, psicológica, digital e física – se articulam para silenciar, expulsar e, em casos-limite, eliminar aquelas que desafiam estruturas históricas de poder.

A violência política de gênero se manifesta de muitas formas. Quando uma mulher é interrompida, silenciada, ridicularizada ou transformada em alvo permanente de campanhas de ódio, o objetivo não é apenas atingi-la. É enviar um recado para todas as outras: “este lugar não é para vocês”. Quando essas mulheres são negras, periféricas, indígenas, trans ou oriundas dos movimentos sociais, a violência ganha contornos ainda mais perversos.

Isso porque essas investidas desafiam estruturas historicamente construídas para manter o poder nas mãos dos mesmos grupos. A extrema direita tem desempenhado papel central na disseminação dessa lógica. Alimenta redes de desinformação, incentiva perseguições, normaliza discursos de ódio e transforma adversárias políticas em inimigas a serem eliminadas.

Não por acaso, mulheres parlamentares, jornalistas, pesquisadoras e lideranças populares têm convivido com ameaças constantes à sua integridade física e emocional. Nenhum feminicídio político começa no momento do disparo. Antes da violência letal, há o esforço para destruir a credibilidade, isolar politicamente, transformar mulheres em alvos permanentes e convencer a sociedade de que suas vozes não pertencem ao espaço público. Quando as instituições falham em interromper esse processo, criam-se as condições para sua expressão mais extrema.

Defender a democracia exige enfrentar essa realidade com coragem. Não haverá democracia plena enquanto mulheres precisarem disputar mandatos sob permanente estado de ameaça. Combater a violência política de gênero e impedir que ela culmine em feminicídios políticos significa fortalecer mecanismos de proteção, responsabilizar agressores e romper com a cultura da misoginia que ainda estrutura parte da política brasileira.

Porque cada mulher silenciada representa uma democracia enfraquecida. E nenhuma sociedade será verdadeiramente livre enquanto a participação política das mulheres continuar sendo tratada como algo que pode ser eliminado pela violência.

Renata Souza é deputada estadual no Rio de Janeiro, reeleita com mais de 174 mil votos em 2022, sendo a mulher mais votada da história da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

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