A inflação de alimentos que marcou o período do Governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, não foi fruto exclusivo de crises internacionais, mas de escolhas estratégicas e administrativas. Documentos oficiais, dados do IBGE e relatórios de gestão apontam que a gestão Bolsonaro executou um desmonte sistemático da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), encerrando os estoques reguladores públicos e fragilizando os mecanismos estatais de controle de preços.
Criada para garantir o abastecimento nacional e mitigar flutuações drásticas de preços, a Conab sofreu baques sucessivos durante a gestão passada. Como consequência da retração do Estado na regulação de commodities agrícolas essenciais, o mercado interno ficou vulnerável à especulação, resultando em disparadas históricas no custo de itens básicos como arroz, feijão, óleo de soja e carne.
Dados de órgãos de fiscalização e do próprio setor público revelam que aquela gestão fechou dezenas de unidades armazenadoras da companhia em vários estados do país, com registros apontando o encerramento de dezenas de armazéns estratégicos.
O resultado dessa política de enxugamento da máquina pública foi a redução expressiva da capacidade do país de intervir em momentos de crise climática ou instabilidade cambial.
Afinal, sem armazéns públicos e sem estoques reguladores de produtos como milho, arroz e feijão, o governo perdeu a ferramenta de compra na época de supersafra, que protege o pequeno produtor do prejuízo, e de venda em períodos de escassez para achatar os preços e conter a inflação.
A extinção quase total dos estoques públicos de alimentos deixou a população brasileira completamente exposta às leis de mercado e à volatilidade das exportações, transferindo a conta da inflação diretamente para o consumidor final.
O impacto no bolso: A escalada da inflação de alimentos
Os reflexos da ausência de estoques reguladores e do enfraquecimento da Conab apareceram de forma contundente nos índices oficiais de inflação.
Conforme dados acumulados pelo IBGE, o custo da alimentação no domicílio disparou ano após ano durante a gestão passada. Em 2019, alta de 7,84%. No ano seguinte (2020), disparada de 18,15% (período crítico da pandemia de COVID-19). Em 2021, a alta foi de 8,24% e em 2022, mais uma alta expressiva de 13,23%.
Enquanto o agronegócio voltado à exportação registrava recordes de faturamento impulsionado pela alta do dólar e commodities cotadas internacionalmente, o mercado interno enfrentava desabastecimento relativo e preços proibitivos.
Alimentos tradicionais da dieta do brasileiro sumiram das prateleiras acessíveis ou exigiram da renda familiar, devolvendo o país para o mapa da fome e da insegurança alimentar grave.
O desestímulo à agricultura familiar
Outro flanco afetado pelo enfraquecimento da Conab foi o suporte à agricultura familiar, principal responsável pela produção de itens que abastecem as feiras e supermercados locais (como hortaliças, feijão, mandioca e frutas).
Com o congelamento de programas de aquisição de alimentos e a desestruturação técnica do órgão, pequenos produtores perderam incentivos de viabilidade econômica para plantar culturas voltadas estritamente ao mercado interno, priorizando plantios de exportação ou reduzindo a área cultivada.
Especialistas em economia agrícola apontam que a combinação entre o desmonte institucional da Conab, a ausência de estoques de segurança alimentar e a priorização absoluta do modelo exportador criou uma tempestade perfeita. O resultado foi a perda da soberania alimentar de curto prazo e o encarecimento crônico da cesta básica, cujos efeitos econômicos e sociais demoraram anos para ser contornados por políticas públicas de reconstrução posterior.

