Somente para quem tem um mínimo do senso de justiça…
Apesar de ter 262 anos de história, Camaçari tem apenas 72 de emancipação política, ainda assim, permeada por um período em que a cidade era Área de Segurança Nacional; até 1985 Camaçari ainda era gerida por prefeitos “biônicos”, indicados pelo Governo do Estado. Qualquer suposta análise política que ignore esse histórico é, no mínimo, leviana.
A democracia, em Camaçari, ainda é um regime político jovem. Muito jovem… tem apenas 38 anos, se considerarmos o ano em que a cidade deixou de ser Área de Segurança Nacional e passou a ter, ainda que em teoria, alguma autonomia política. Ainda assim, o primeiro prefeito eleito chegou ao poder apenas em 1986: 34 anos de gestões escolhidas, em alguma medida, em tese, pelo povo.
Em alguma medida, vale frisar, por várias razões, entre elas o histórico de fraudes eleitorais comprovadas, incluindo voto de pessoas falecidas ou número de votos maior que o número de eleitores do município. Abaixo disso, mas não menos importante, abuso de poder econômico, boca de urna e compra de votos, ainda que sem a devida e importante comprovação – apesar do ‘descarado’ dalguns casos, fazem parte da rotina da cidade, a cada dois anos. É de conhecimento geral.
Feito esse pequeno histórico, vamos falar de legado: quem lembra – ou quem pesquisa – de como era Camaçari até 2004 sabe que a cidade tinha o apelido nada carinhoso de “quintal de Salvador”: gerida continuamente pelo mesmo grupo político que dominava o Estado, a cidade não tinha brilho, nem vida. A beleza se resumia à estritamente natural, relegada às praias. Camaçari era uma cidade feia e abandonada em diversos e diversos aspectos.
Quem mudou isso, justiça seja feita, e doa a quem doer, chama-se Luiz Carlos Caetano. Fato.
A eleição do correligionário Lula para a presidência da República, em 2002, abriu as portas da mudança para o país inteiro e Camaçari, pelas mãos de Caetano, também entrou no circuito. A cara que Camaçari tem hoje, quem construiu foi Luiz Caetano: as praças, unidades de saúde, escolas, o equipamento de inclusão social que atende por ‘Cidade do Saber’, a requalificação da orla, requalificação das duas principais entradas da cidade, os milhares e milhares de apartamentos e casas que muita gente hoje pode chamar de sua… De fato, ainda que isso incomode alguns, ele transformou a cidade inteira, mas, esse não é seu maior legado.
Como estamos falando de história, é bom lembrar que, antes de Luiz Caetano, Humberto Ellery, lá entre 1974 e 1985, ainda na condição de prefeito “biônico”, foi o primeiro responsável por estruturar a cidade: Ellery implantou a prefeitura, trouxe o Programa de Habitação Ordenada de Camaçari, hoje apenas conhecidos como PHOC’s, as Glebas, construiu as principais avenidas da cidade: Radial A, B e C…
Apesar das obras importantes realizadas por José Tude, atual vice-prefeito (construção do prédio da prefeitura, da Câmara Municipal, da Casa do Trabalho e do Viaduto do Trabalhador – esse último, com um empréstimo tão absurdo que perdurou por décadas), a verdade é que, entre os 11 anos da primeira gestão de Ellery e a primeira gestão de Caetano, até o início dos 08 anos que Caetano governaria, a população mais carente da cidade, a maioria da população do município, viveu em estado de abandono. Uma década e meia de desamparo.
Então, qual é o legado de Caetano? Humanização da cidade. Antes de Luiz Carlos Caetano, antes do PT, a população mais carente dessa cidade não exigia seus direitos, porque nem acreditava que conseguiria nada. A ascensão de Caetano à prefeitura deu uma guinada de 180º não só no respeito que a cidade hoje goza no meio político, mas no respeito que a população tem por si mesma.
Caetano, ao se eleger na década de 80, então com apenas 31 anos, sem desprezo aos percalços que sofreu e a cidade junto com ele, por enfrentar o todo poderoso governador da ocasião, já falecido, tirou Camaçari do “jogo de peteca” político que a cidade vivia, passando de mão em mão dentro do mesmo grupo político que já a dominava desde o tempo da Área de Segurança Nacional. O maior legado de Caetano foi mostrar à população de Camaçari que era e é possível sonhar, realizar, querer mais.
Podia ter sido qualquer um, mas foi ele, quem articulou, costurou, construiu uma conjuntura política na qual a democracia da cidade se fortaleceu, o povo passou a ser mais respeitado e cidade inteira viveu anos bons.
Ora, por que essa “rasgação de seda” toda? Porque um povo que não conhece sua história é incapaz de construir um presente. Também porque é papel do jornalismo tratar com justiça as informações. Tentar resumir a história de Luiz Carlos Caetano a apenas um suposto favorecimento familiar é ignorar o papel dessa pessoa na construção da cidade que Camaçari é hoje. Eis algo que não vai mudar, não importa quantas eleições ele perca, “direta ou indiretamente”.
O importante de falar desse legado não é exatamente dar os louros a Caetano pelo trabalho que ele fez. É lembrar que Camaçari, ainda que vivendo sob a pecha de uma democracia, não era, nem de longe, uma cidade democrática, do ponto de vista político. O povo vivia subjugado e sua vontade ignorada, fosse de maneira escancarada, fosse com estratagemas ou com a famigerada manipulação camuflada e ardilosa. Fato.
E o gesto, de deselegante à absurdo, desta segunda-feira (16/11), do prefeito eleito – ou de seja lá quem tenha sido dos seus, de colocar na rua dois caixões, e caixões reais em tamanho natural, com o nome dos seus adversários políticos, numa absoluta falta de respeito [dá respeito que tem respeito, porém], se comportando mais como um moleque birrento do que como o prefeito de uma cidade do porte de Camaçari, mostra que o pensamento retrógado continua exatamente o mesmo. Apenas as condições de ação mudaram.
O resultado da ópera? A ‘análise’ política feita por determinado jornalista da cidade, foi injusta. Ademais disso, não se deve cuspir no prato que se come. Mas é compreensível, se ‘a ocasião faz o ladrão’, como dizem os mais velhos. Quanto ao prefeito, com todo respeito [respeito dou por que tenho], sobre o legado de Caetano, caso ele já esteja mesmo ‘morto e enterrado’, o nobre gestor ainda terá uma viagem muito longa para fazer e, se conseguir, retornar com uma bagagem ao menos parecida, para então poder bancar dalguma coisa. Fato.
