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Tabagismo começa cedo, mata 145 mil brasileiros por ano e custa R$ 153,5 bi ao país

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Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

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Quase 145 mil brasileiros morrem todos os anos por causas atribuíveis ao tabagismo. São cerca de 477 mortes por dia provocadas por uma dependência que, em muitos casos, começa ainda na infância ou na adolescência. Além das vidas perdidas, o tabagismo provoca um impacto econômico de R$ 153,5 bilhões por ano no país, dos quais R$ 67,2 bilhões correspondem a custos médicos diretos. O cenário ganha novos contornos com o avanço dos cigarros eletrônicos entre os jovens: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, 29,6% dos adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos já experimentaram esses dispositivos. Em 2019, eram 16,8%.

Os números reforçam o alerta do Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, mas também mostram que o problema está longe de ser restrito ao cigarro convencional. A nicotina provoca dependência e o consumo prolongado está relacionado a doenças respiratórias, cardiovasculares e diversos tipos de câncer. Segundo o INCA, entre as principais causas de morte atribuíveis ao tabagismo estão a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), doenças cardíacas, cânceres e acidente vascular cerebral (AVC).

A Tribuna da Bahia conversou com Jorge Ardila, pneumologista e especialista em cessação do tabagismo no setor de Medicina Respiratória do Hospital São Rafael, da Rede D’Or, onde atua no programa HSR Pela Vida. Segundo o especialista, um dos principais desafios está justamente no fato de que a dependência pode ser construída muito cedo. “Se fala muito que o tabagismo é uma doença pediátrica, porque ele termina começando na idade adolescente ou até na infância. Muitos dos pacientes começam a experimentar o tabaco na idade da adolescência, uns 13 a 14 anos, e muitos deles durante a infância, até 8, 9 anos”, afirma.

Programa

Um dos pacientes que passaram pelo acompanhamento de Ardila no programa HSR Pela Vida foi Odeliz Gaiche, de 72 anos. Fumante por mais de cinco décadas, ela começou a consumir cigarros ainda na infância e desenvolveu DPOC e enfisema em 2022, depois de ser internada com pneumonia e infecções respiratórias. Hoje, cinco anos após o tratamento para cessação do tabagismo, Odeliz está sem fumar e usa a própria experiência para mostrar que, mesmo depois de décadas de dependência, é possível abandonar o cigarro.

A relação com o tabaco começou quando ela tinha aproximadamente dez anos, depois de acender cigarros para a mãe. “Comecei a fumar eu tinha uns 10 anos. Acendia cigarros para a minha mãe e comecei a fumar. Infelizmente, naquela época era muito comum”, conta.

Foram mais de 50 anos de consumo. Ao longo da vida, Odeliz tentou abandonar o cigarro utilizando adesivos e outras estratégias terapêuticas, mas não conseguiu. A mudança aconteceu quando procurou o acompanhamento de Ardila e entrou no programa HSR Pela Vida. “Eu tentei parar de fumar diversas vezes, usei aqueles adesivos, fiz algumas tentativas terapêuticas. Mas, nada deu certo. Até que conheci o médico que me acompanha, decidi entrar no programa de tratamento que ele faz, o HSR Pela Vida. Acreditei na qualidade, no atendimento e deu certo”, relata.

A dependência vai além da força de vontade, afirmam especialistas

De acordo com Ardila, a dificuldade para abandonar o cigarro não está apenas na dependência química. O cotidiano também pode funcionar como um estímulo para o consumo. “As maiores dificuldades para a cessação do tabagismo são os gatilhos e as barreiras. Os gatilhos são tudo aquilo que leva o paciente a aumentar o uso do cigarro. Alguns gatilhos são o café preto, o álcool. Muitos pacientes que fumam têm associação com o uso de álcool”, explica.

Conforme o especialista, fatores emocionais também podem dificultar a interrupção do consumo. “Outra dificuldade muito frequente nos pacientes com dependência de nicotina são as barreiras. As barreiras são associadas à depressão, ansiedade, sobrecarga de trabalho. São pacientes que têm muita responsabilidade no trabalho, têm ansiedade ou depressão associada. Isso aumenta muito a probabilidade do consumo e aumento do cigarro convencional e está associado também às outras formas de fumaça”, afirma.

No caso de Odeliz, os efeitos de décadas de tabagismo apareceram de maneira concreta. Em 2022, ela foi diagnosticada com DPOC e enfisema durante uma internação, depois de enfrentar crises de pneumonia e infecções respiratórias. “Foi um susto muito grande. Quando descobri, já estava doente. Tive crises de pneumonia e infecção respiratória”, lembra.

Segundo o INCA, a DPOC está entre as doenças que mais provocam mortes relacionadas ao tabagismo no Brasil. São mais de 40 mil mortes anuais atribuíveis ao consumo de tabaco. Doenças cardíacas respondem por mais de 30 mil mortes, enquanto câncer de pulmão, outros tipos de câncer e AVC também aparecem entre as principais consequências. O cigarro ainda está relacionado a tumores de boca, laringe, faringe e esôfago, além de aumentar o risco de infarto e outras doenças cardiovasculares.

“Além do câncer do pulmão, existem muitos danos no sistema cardiovascular. A gente sabe que o cigarro tem predisposição para todas as doenças, além do câncer do pulmão, câncer de boca, de esôfago e todos os cânceres associados, além de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC”, alerta Ardila.

Tratamento

Apesar dos danos, o especialista ressalta que abandonar o cigarro é possível e que o tratamento deve ser individualizado. “A orientação do paciente que fuma há muitos anos, tem desejo de parar de fumar, é procurar ajuda profissional”, orienta. Segundo ele, o acompanhamento pode envolver abordagem cognitiva e comportamental, psicólogo, psiquiatra e tratamento farmacológico, conforme a necessidade de cada paciente. “A gente precisa avaliar o paciente como um todo, cada paciente individualizado para o tratamento da cessação do tabagismo”, afirma.

Odeliz é um exemplo concreto dessa possibilidade. Depois de mais de 50 anos fumando, ela conseguiu abandonar o cigarro com o acompanhamento de Ardila e permanece sem fumar há cinco anos. O processo não foi simples e houve momentos em que a vontade de voltar apareceu, mas o acompanhamento profissional ajudou a enfrentar as dificuldades. “Estou há cinco anos sem fumar, graças ao tratamento em que acreditei e ao médico excepcional que eu tenho. Claro que teve momentos difíceis, em que dava vontade de voltar a fumar. Mas, com a ajuda do médico, Jorge, que durante o tratamento me trouxe muito conhecimento, e graças às internações que fiz, eu acreditei que podia dar certo. E deu”, conta.

Cigarro eletrônico

Enquanto o caso de Odeliz mostra que é possível abandonar o cigarro, o crescimento do consumo de dispositivos eletrônicos entre adolescentes cria uma nova preocupação. Segundo a PeNSE 2024, quase três em cada dez jovens de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico. Para Ardila, o combate ao tabagismo precisa acompanhar essa mudança de comportamento. “Hoje em dia, a gente precisa de muita conscientização com o avanço do cigarro eletrônico em pacientes jovens. A gente precisa de mais conscientização, palestra, educação continuada para instituições, para escolas, faculdades”, defende.

O especialista ressalta que o alerta precisa incluir também outras formas de consumo de nicotina e fumaça. “A gente termina esquecendo que não só o cigarro convencional e o cigarro eletrônico, o narguilé, hoje em dia as bolsas de nicotina, os cigarros de aerossóis e as outras formas de fumaça também impactam na saúde dos pacientes”, afirma.

Para Odeliz, o arrependimento veio acompanhado da consciência sobre o que poderia ter sido evitado se tivesse recebido, ainda criança, as informações que possui hoje. “Se lá atrás eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, jamais teria fumado. Claro que, naquele tempo, com 10 anos, era impossível que eu pudesse pensar nisso. Mas, depois, mais tarde, com 20 anos, se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, jamais teria começado a fumar.”

É justamente entre a primeira experiência e a dependência que está uma das principais frentes de prevenção. Segundo Ardila, o Dia Nacional de Combate ao Fumo é uma oportunidade para ampliar a informação sobre os riscos e estimular quem já fuma a buscar tratamento. “Essa data é eficaz para conscientizar, educar, informar o perigo do cigarro e do dano à saúde”, afirma.

A trajetória de Odeliz acrescenta uma dimensão humana às estatísticas. Depois de começar a fumar aos dez anos, passar mais de cinco décadas dependente da nicotina e desenvolver uma doença pulmonar, ela conseguiu abandonar o cigarro e está há cinco anos sem fumar. A mensagem que fica é a mesma que o especialista reforça: parar pode ser difícil, mas não é tarde para procurar ajuda e começar o processo de cessação.

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