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Parte do núcleo da Terra muda de direção após décadas, cientistas investigam a causa e tentam prever possíveis danos

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A inversão ocorreu no núcleo externo da Terra, em uma região localizada sob o Pacífico equatorial (Foto: Nathanaël Schaeffer/Wikimedia Commons)

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Há quase 3 mil quilômetros de rocha entre a superfície e o núcleo externo da Terra, mas alterações no campo magnético permitem acompanhar parte do que acontece lá embaixo. Foi assim que cientistas identificaram uma mudança inesperada: uma região de ferro líquido sob o Pacífico passou a se mover na direção oposta.

A alteração ocorreu por volta de 2010, quando uma área ampla sob o Pacífico equatorial deixou um fluxo relativamente fraco para oeste e passou a apresentar movimento intenso para leste. O motivo dessa virada ainda não está confirmado.

A virada de 2010

O resultado aparece em um estudo publicado em 2026 por Frederik Dahl Madsen, Isobel Howard, William J. Brown e Kathryn Whaler. A equipe reuniu observações feitas entre 1997 e 2025, combinando medições em solo com dados de missões espaciais.

Os pesquisadores usaram variações no campo geomagnético para reconstruir modelos do fluxo profundo no topo do núcleo externo. Em seguida, aplicaram uma análise capaz de separar os padrões dominantes das mudanças menores, mas importantes, observadas no período.

O resultado ajuda a colocar a descoberta em perspectiva. A maior parte do movimento profundo continuou ligada a padrões persistentes, como um grande giro planetário e um jato de altas latitudes.

Os outros 4% de todo o fluxo planetário concentraram justamente a alteração que revelou a inversão sob o Pacífico (Foto: Christopher C. Finlay, Julien Aubert e Nicolas Gillet/Wikimedia Commons)

O que muda no mundo?

Por enquanto, a inversão observada sob o Pacífico não produz mudança perceptível no cotidiano. Ela não significa que os polos magnéticos estejam se invertendo nem indica uma alteração repentina na proteção oferecida pelo campo magnético da Terra.

O fenômeno ocorre no núcleo externo e faz parte das variações internas que, ao longo do tempo, modificam lentamente o campo observado na superfície. A importância está principalmente em entender melhor o geodínamo terrestre.

Esse é o mecanismo pelo qual o movimento do ferro líquido gera o campo magnético do planeta (Foto: Carie Frantz/Wikimedia Commons)

Quanto mais precisos forem os modelos desse fluxo profundo, melhor os cientistas conseguem explicar por que o campo magnético ganha ou perde intensidade em determinadas regiões e como essas mudanças evoluem ao longo das décadas.

Essas informações também ajudam a aperfeiçoar modelos usados em navegação, operação de satélites e estudos sobre clima espacial, já que o campo magnético terrestre não é fixo e muda lentamente com o tempo.

Como enxergar o núcleo

Nenhum satélite consegue observar diretamente o ferro líquido do planeta. O núcleo terrestre começa a cerca de 2.900 quilômetros da superfície, enquanto o núcleo externo líquido tem aproximadamente 2.200 quilômetros de espessura.

Por isso, os cientistas precisam reconstruir seu comportamento a partir dos sinais magnéticos que chegam até nós. Entram aí missões como Ørsted, CHAMP, Swarm e CryoSat, cujos dados fizeram parte da análise.

Os três satélites Swarm, lançados pela Agência Espacial Europeia em 2013, possuem instrumentos capazes de medir o campo magnético com alta precisão. A missão ajuda a separar sinais vindos do núcleo, da crosta, dos oceanos, da ionosfera e da magnetosfera.

Essa cobertura permitiu reconstruir como o fluxo se alterou ao longo das décadas (Foto: C. C. Finlay, C. Kloss e N. Gillet/Wikimedia Commons)

O modelo indica ainda uma segunda mudança. Depois de se intensificar, o movimento para leste começou a enfraquecer após 2020. Portanto, ainda não está claro se a inversão representa um novo estado duradouro, uma oscilação temporária ou parte de um ciclo mais longo.

Uma ligação mais profunda

Há uma pista que os autores consideram especialmente interessante. A intensificação do fluxo para leste aconteceu aproximadamente na mesma época em que estudos de geodesia e sismologia apontaram mudanças no comportamento do núcleo interno.

A coincidência levou a equipe a propor uma possível conexão entre fenômenos em diferentes profundidades (Foto: Dixon Rohr/NASA)

Por enquanto, porém, trata-se de uma hipótese, não de uma causa demonstrada. Os próprios pesquisadores deixam abertas diferentes possibilidades: o fluxo pode ter sofrido uma flutuação passageira, estar passando por uma oscilação recorrente ainda desconhecida ou ter encontrado um novo equilíbrio.

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