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Buracos e chuvas: situação da BR-324 preocupa para o São João na Bahia

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BR-324 - Foto: Reprodução/ViaBahia

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Foi sem grandes lamentos que a concessionária ViaBahia encerrou a administração das BRs 324 e 116, duas das mais importantes do estado, há um ano. Afinal, quem trafegava com frequência pelas rodovias estava cansado de pagar por um serviço aquém do prometido no começo da privatização – mais qualidade, melhorias e atendimento rápido e eficaz. A saída conturbada fez com que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) assumisse pela primeira vez o papel de gestor, função provisória mas que entrou no segundo ano no dia 15 passado e vai se estender até a chegada da nova concessionária.

Ainda não há uma data prevista para isso acontecer mas, de acordo com o calendário do Ministério dos Transportes divulgado no final de 2025, a próxima etapa é a publicação do edital do leilão que definirá a substituta da ViaBahia, em julho. Já o leilão deve acontecer em novembro, tocado pela estatal federal Infra S.A. Batizado simbolicamente de Rota 2 de Julho, o trajeto de 653 km tem impacto direto na vida de milhares de baianos e na economia do estado. Vai de Salvador a Feira de Santana e de lá até a divisa de Minas Gerais, com trânsito intenso, que ganha um volume ainda maior com a chegada das festas juninas.

“O que o Dnit fez em um ano, a ViaBahia não fez em cinco. O trabalho deles era só de tapa-buracos, muito superficial, e nós temos que seguir as determinações técnicas” garante Roberto Alcântara, superintendente regional do órgão. Ele explica que desde que o Dnit assumiu as rodovias, que estavam “em péssimo estado de conservação e com buracos em toda a sua extensão”, os trabalhos acontecem ininterruptamente, realizados por quatro empresas, que administram sete contratos no valor total de R$310 milhões.

São intervenções que incluem tapar os buracos que causam prejuízos e acidentes, tirar o mato, fazer drenagem, e eliminar as fissuras com fresagem e novo recapeamento. Segundo Roberto, cerca de 45% da manutenção funcional prevista já foi entregue e até o São João a expectativa é chegar até 60%. “Temos contratos, recursos e vontade de fazer, mas é extremamente complexo realizar obras com a rodovia em funcionamento”, afirma Roberto, acrescentando que as fortes chuvas que caem desde abril no estado atrasam as obras e agravam os problemas.

“Sabemos que o serviço de tapa-buraco causa muitos transtornos, com a interrupção de determinados trechos, mas é inevitável”, diz, lembrando que pela 324 passam mais de 40 mil veículos diariamente. No período dos festejos juninos, esse número pode chegar a 120 mil, aumentando os riscos e as preocupações.

Acidentes graves
O mês de maio está deixando um saldo preocupante no número de acidentes, o que faz aumentar a sensação de insegurança de quem trafega pelas rodovias. Entre os dias 6 e 12, quatro acidentes graves foram registrados entre as cidades de Feira de Santana e Amélia Rodrigues, na BR 324, com duas mortes. Na Região Metropolitana de Salvador, um homem de 29 anos morreu e sete pessoas ficaram feridas após um ônibus tombar na altura de Simões Filho, no dia 12. O veículo, da empresa Cidade Sol, levava funcionários para o Polo Industrial de Camaçari.

Segundo Roberto, o Dnit monitora de perto os acidentes, até porque pode ser responsabilizado por eles. Mas até agora as investigações apontam para excesso de velocidade, resposta tardia ou imprudência dos motoristas e não por problemas estruturais. “Mais de 90% dos acidentes não acontecem em virtude das condições das vias”, assegura. No caso do ônibus, a Polícia Rodoviária Federal informou que o tombamento aconteceu devido ao acúmulo de água da chuva na rodovia, além de óleo.

Apesar da repercussão dos casos recentes, os números de sinistros na 324, entre janeiro e o dia 21 de maio passado são quase iguais aos do ano passado: 232 acidentes com 13 mortes, em 2025, e 244 acidentes com 13 mortes este ano. O inspetor da PRF Fábio Rocha atribui a sensação de maior impacto à demora maior do Dnit no atendimento às demandas, como por exemplo na liberação das pistas após acidentes, causando grandes congestionamentos.

A PRF é uma das responsáveis pela Operação São João, que acontece em junho, tentando se antecipar aos problemas causados pela chuva e pelo excesso de veículos. “São ações para garantir o fluxo desde a saída de Salvador e chegando aos principais destinos de festas juninas, reforçando o policiamento para prevenir acidentes e garantir um rápido atendimento”. Fábio também destaca que o desrespeito às normas de trânsito, como falar ao telefone ou beber e dirigir, causam os acidentes mais graves. “A maioria dos acidentes por causa de buracos e outros problemas das vias não deixa vítimas”, pontua.

Esperando melhorias
Quem é usuário frequente da 324 e da 116 está com pé atrás em relação à futura concessionária, justamente por conta da experiência anterior. Entre os problemas apontados à reportagem por três motoristas estão os muitos desníveis, pouca fiscalização eletrônica, sinalização inadequada, falta de iluminação em muitos trechos e excesso de velocidade.

A professora Nadja Cardoso costuma se deslocar, em média, duas vezes por semana entre Salvador e Santo Amaro, para dar aulas no curso de Produção Musical da UFRB. Ela reconhece a “manutenção básica” feita pelo Dnit, mas acredita que é preciso resolver questões estruturais para deixar a 324 mais segura. “Tenho presenciado muitos acidentes e tem tido uma demora considerável na retirada dos veículos. É preciso ter uma melhor gestão do fluxo e monitoramento da rodovia”, aponta Nadja. Em sua opinião, a 324 precisa ser ampliada, para comportar o alto fluxo entre a capital e Feira de Santana. “Além disso ela é muito mal sinalizada, precisa de equipamentos melhores em toda a extensão, que protejam os motoristas em caso de colisões e saídas das pistas”, enumera.

Morando em Feira e trabalhando em Salvador como operador de processos da Embasa, Renato Almeida faz o caminho entre as cidades pelo menos uma vez por semana. Quando está em casa, costuma transitar em um trecho da 116 no entorno de Feira, para levar os filhos à escola. Ele considera que as mudanças do último ano melhoraram o trajeto, com destaque para o fim dos buracos, destruindo “o mito de que privatização garante qualidade dos serviços”.

“A 324 é a rodovia com maior índice de multas por excesso de velocidade da Bahia. Na minha ida e vinda cotidiana, o bicho papão são os longos engarrafamentos nos horários de pico e que pioram caso tenha algum sinistro na pista”, avalia Renato, que acha que os trechos mais complexos estão na chegada a Salvador e no anel de contorno de Feira, na 116 norte. Sua expectativa com a nova concessionária, diz, infelizmente não é positiva, “primeiro por conta dos traumas das experiências com a antiga concessionária, segundo porque a expectativa é que fique bem caro”.

O motorista Alex Gadelha também não tem boas recordações da ViaBahia. Depois do terceiro vidro quebrado por um resto de obra, ele acionou a empresa para arcar com o prejuízo, mas teve o pedido indeferido. Alex vem a Salvador de segunda a sábado, transportando pessoas do povoado de São José do Itaporã, próximo a Cruz das Almas. “Espero que a nova concessionária coloque um asfalto como o da BR 101, que é um tapete quando comparado à 324”, diz.

“A BR 324 estava muito destruída, então o Dnit fica enxugando gelo”, avalia o rapaz, que aponta o trecho na cidade de Amélia Rodrigues como recorrente em termos de acidente.

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