Fórum/Glauco Faria
Após o navio de cruzeiro Hondius, da empresa holandesa Oceanwide Expeditions, ter registrado um surto de hantavírus entre seus passageiros, a plataforma Polymarket registrou quase US$ 3 milhões em apostas sobre a possibilidade de uma nova pandemia da doença ainda este ano. A informação, do site estadunidense Mother Jones, revela um cenário onde crises sanitárias viraram alvo de especulação, a despeito das graves implicações humanas que elas possam ter.
Apesar do frenesi dos apostadores, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o risco de uma pandemia em larga escala como baixo. A diretora de gestão de epidemias da OMS, Maria Van Kerkhove, foi categórica ao afirmar que o hantavírus “não é a nova covid” e possui uma dinâmica de propagação muito diferente, exigindo contato próximo e tendo um período de contágio de aproximadamente um dia.
“Até o momento, a transmissão de pessoa para pessoa foi documentada apenas para o vírus Andes nas Américas e permanece incomum. Quando ocorre, a transmissão entre pessoas tem sido associada a contato próximo e prolongado, particularmente entre membros da mesma família ou parceiros íntimos, e parece ser mais provável durante a fase inicial da doença, quando o vírus é mais transmissível”, diz o site da entidade.
Apostas nas tragédias
Isso não é capaz de frear outro problema de saúde pública. A febre de apostas em tragédias ganhou força com a pandemia de covid-19 e a flexibilização legal das apostas esportivas nos Estados Unidos. Hoje, megaplataformas online permitem que os usuários coloquem dinheiro em praticamente qualquer cenário, transformando o que antes era um nicho marginal em uma indústria bilionária que, segundo estimativas, pode atingir US$ 1 trilhão em volume de transações anuais até 2030.
Para especialistas consultados pelo Mother Jones, o fenômeno expõe uma grave crise de saúde mental e financeira. John W. Ayers, professor de saúde pública da Universidade da Califórnia, explicou ao site que apostar na disseminação de um vírus é um forte indicativo de vício severo em jogos de azar, um problema que já afeta cerca de 10% dos homens jovens e está correlacionado a outras dependências.
“Culturalmente, isso se tornou normal, e agora damos a isso essa aparência de ‘Ah, não é jogo de azar. É um mercado de palpites’. Não importa”, aponta Ayers. “O fato de as pessoas apostarem nessas coisas indica, para mim, um problema social maior: tudo se torna uma oportunidade de monetização.”
A Polymarket é proibida no Brasil. Em 24 de abril, o governo Lula bloqueou 27 plataformas de mercados preditivos após uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) proibir apostas baseadas em temas políticos, eleitorais, sociais, culturais ou de entretenimento no país.
“A lei que o Congresso aprovou prevê duas hipóteses para apostas no Brasil: aposta que incide sobre esporte e jogos online. O que está por trás das apostas do mercado de predição é enorme: se vai chover, se alguém vai morrer. Existe uma abertura demasiada que viola a lei”, pontuou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, na ocasião.
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