Fórum/Henrique Rodrigues
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu a largada, nesta segunda-feira (6), em São Paulo, àquela que é considerada por seu núcleo duro como a “operação de sobrevivência” e a engrenagem mais vital para sua pré-candidatura à Presidência: o corpo a corpo intensivo e reservado com o topo da pirâmide evangélica brasileira. A ofensiva não é por acaso. É um movimento calculado para blindar seu principal reduto eleitoral contra o avanço de adversários da direita, como o governador Ronaldo Caiado (PSD), que oficializou sua candidatura na semana passada e já sinaliza incursões sobre o mesmo segmento.
Para o bolsonarismo, o apoio desse setor social não é apenas desejável, é uma condição de existência. Historicamente, a competitividade da família Bolsonaro depende do apoio massivo de fiéis e lideranças religiosas. Sem os púlpitos, a viabilidade eleitoral do projeto 2026 estaria seriamente comprometida.
Altar como panteão político
O primeiro grande gesto simbólico ocorreu logo pela manhã, durante um encontro estadual de obreiros da Assembleia de Deus Ministério do Belém, na capital paulista. Em uma cena carregada de liturgia política, Flávio Bolsonaro subiu ao púlpito, ajoelhou-se e “recebeu a bênção” do bispo José Wellington Bezerra da Costa diante de pelo menos 40 pastores de alta influência.
A oração do bispo não deixou margem para interpretações ambíguas sobre o caráter da visita. “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação. Que ele tenha graça e nasça do céu”, declarou a liderança religiosa. O evento contou ainda com a participação do pastor José Wellington Costa Júnior, reforçando o vínculo com a Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus do Brasil, entidade com uma das maiores capilaridades nacionais do país.
Agenda “oculta” e os caciques da fé
Segundo o coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), a incursão em São Paulo se estende por dois dias e foca em encontros reservados. O modelo resgata a estratégia vitoriosa de 2018: conversas individuais, longe dos holofotes e focadas diretamente nos dirigentes que detêm grande capacidade de mobilização de massas. Na lista de alvos da interlocução bolsonarista estão nomes como Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, R. R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, e Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus.
A joia da coroa, no entanto, é o diálogo com Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono do Grupo Record. Interlocutores trabalham intensamente para destravar uma agenda com o poderoso bispo, cujo apoio é visto como o fiel da balança para o controle da narrativa midiática e religiosa na disputa.
Peso do segmento nos números
A urgência da estratégia é explicada pela matemática eleitoral. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva patina entre o eleitorado evangélico, oscilando entre 21% e 25% nas pesquisas mais recentes do Datafolha, Flávio Bolsonaro domina o setor com cerca de 48% das intenções de voto. É o dobro do desempenho de seu principal oponente. Manter essa distância é o que separa Flávio de uma candidatura competitiva para uma aventura política incerta.
Após o giro religioso em São Paulo, o senador retorna a Brasília nesta terça-feira e já prepara as malas para Mato Grosso do Sul. Na quinta-feira, ele é esperado na Expogrande, em Campo Grande. O gesto mira o segundo pilar de sustentação de sua plataforma: o agronegócio. A meta é clara: consolidar as bases “Bíblia e Boi” antes que outros nomes da direita consigam ocupar o espaço deixado pela fragmentação do campo conservador.
NOTA DO CFF:

