Fórum/Tati Fávaro
A fala misógina de Neymar em uma entrevista depois do jogo em que o Santos venceu o Remo por 2 a 0 extrapolou a repercussão nas redes e ecoou na mídia internacional. Ao receber o terceiro cartão amarelo, e ter de ficar fora da partida contra o Flamengo na próxima rodada, disse que o árbitro Sávio Pereira Sampaio “acordou meio de chico”.
Chico, em português de Portugal, é sinônimo de “porco” (a palavra chiqueiro vem daí). A expressão era usada para nomear de forma depreciativa a menstruação em uma época em que o período menstrual era considerado sujo, por impedir relações sexuais. “Estar de chico”, portanto, se aproximava de algo como “estar suja”.
Segundo especialistas, o enquadramento passa pelo artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de atos discriminatórios, desdenhosos ou ultrajantes, e pelo art. 258, que aborda condutas contrárias à disciplina ou à ética desportiva. Dependendo da interpretação, as sanções podem variar de multa a suspensão do jogador por cinco a dez partidas.
O deputado Nikolas Ferreira (PL) quis ganhar palco para sua bandeira contra a Lei da Misoginia e saiu em defesa do amigo com mais de 200 milhões de seguidores, banalizando o projeto que criminaliza o ódio, desprezo ou aversão às mulheres. “Se a Lei da Misoginia for aprovada, casos como esse, levaria (sic.) Neymar pra cadeia. Foi como eu disse, essa lei é uma aberração”, afirmou em sua rede social sem levar em consideração o que diz e o que muda com o projeto em defesa das mulheres.
“O que se vê não é um debate jurídico sério sobre limites normativos ou garantias constitucionais, mas um movimento político organizado para esvaziar o sentido da lei antes mesmo de sua existência”, afirmou a especialista em Gênero e Saúde da Mulher pela Universidade de Stanford (EUA) e especialista em Violência Baseada em Gênero pelas Agências das Nações Unidas (em cooperação com a ONU e Unicef), Thaís Cremasco, colunista da Fórum. “Isso evidencia que, em determinados contextos, o direito sequer precisa entrar em vigor para produzir efeitos concretos, bastando que ele ameace alterar a lógica de impunidade historicamente estabelecida.”

