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IMPERDÍVEL – “- E aí? Foi Deus quem mandou o raio?” – por pastor Zé Barbosa Jr

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Nikolas e sua irresponsabilidade - Foto: Beto Barata/PL

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Entre a tentação de atribuir tragédias a Deus e a recusa em enfrentar a própria irresponsabilidade política, o episódio em Brasília revela menos sobre o céu e muito mais sobre os riscos de uma extrema-direita disposta a tudo

Há quem veja sinais divinos em tudo. Um gol no último minuto vira milagre, uma doença curada vira prova de fé, uma tragédia vira castigo. No Brasil de hoje, essa lógica foi acionada mais uma vez quando um raio atingiu a aglomeração que aguardava o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em Brasília, em meio a um forte temporal. Para alguns, Deus teria “se vingado”. Para outros, Deus teria “dado um aviso” contra a mistura entre religião e política. Ambas as leituras erram o alvo — e, pior, reproduzem exatamente o tipo de discurso que a extrema-direita transformou em método.

O que aconteceu não foi um ato divino. Foi um ato humano. Ou melhor, um conjunto de atos humanos marcados por irresponsabilidade, fanatismo político e desprezo por qualquer noção básica de segurança. Enfrentar um temporal em área aberta, com milhares de pessoas aglomeradas, é assumir um risco óbvio. Raios não escolhem lado ideológico, não leem Bíblia nem Constituição. Atribuir o ocorrido a Deus não é fé: é terceirização da culpa. É mais fácil apontar para o céu do que encarar decisões tomadas aqui embaixo.

Mas há um segundo ponto que precisa ser dito sem rodeios: se o episódio tivesse ocorrido em um evento identificado com a esquerda, as redes sociais estariam, neste momento, inundadas de posts da extrema-direita atribuindo o raio à “ira divina”, ao “castigo de Deus”, à suposta punição contra “comunistas”, “ateus” ou “inimigos da família”. Essa não é uma hipótese abstrata; é um padrão conhecido. A ideia de um Deus punitivo, vingador e seletivo — que age como cabo eleitoral e juiz moral — é central na gramática política da extrema-direita brasileira.

Justamente por isso, a esquerda não pode entrar nesse jogo. A disputa política não pode se dar no terreno do obscurantismo, da zombaria com a fé alheia ou da leitura teológica de acidentes naturais. Reproduzir esse tipo de discurso, ainda que por ironia ou revanche simbólica, significa aceitar as regras do adversário e legitimar o que há de mais tosco e perigoso em sua retórica. Não se combate fundamentalismo com mais fundamentalismo. Não se enfrenta o uso político da fé banalizando Deus como instrumento narrativo.

Isso não significa aliviar a responsabilidade dos organizadores e das lideranças envolvidas. Pelo contrário. Nikolas Ferreira e sua trupe agem como moleques irresponsáveis travestidos de estadistas. Flertam com o caos, apostam na tensão permanente, estimulam aglomerações em condições adversas e depois se escoram em discursos de vitimização ou transcendência. É uma política sem lastro, sem cuidado com as pessoas reais, sustentada apenas por likes, engajamento e sensação de pertencimento messiânico.

No entanto, reduzir o episódio apenas à irresponsabilidade seria um erro analítico grave. O que aconteceu em Brasília também revela algo mais profundo e inquietante: a capacidade de mobilização da extrema-direita. Reunir quase 20 mil pessoas, mesmo sob chuva forte, mesmo com riscos evidentes, não é um detalhe irrelevante. Isso não pode ser tratado apenas como desinformação ou fanatismo individual. Há ali uma disposição coletiva preocupante: a de ir até as últimas consequências em nome de um projeto de poder que não esconde sua vocação autoritária.

Essa disposição já se manifestou antes. Nos acampamentos em frente a quartéis, na recusa em aceitar resultados eleitorais, na naturalização da ideia de golpe, na crença de que a vontade de um grupo se sobrepõe às regras democráticas. O corpo exposto ao temporal não é apenas metáfora; é método. Sofrer, resistir, desafiar limites — tudo isso é mobilizado como prova de fé política. Quanto maior o risco, maior o senso de missão.

Por isso, o debate central não é se Deus estava ou não presente naquele raio. O debate é como a política brasileira chegou a um ponto em que acidentes naturais são imediatamente capturados por narrativas messiânicas, punitivas ou conspiratórias. É como parte da sociedade passou a aceitar líderes que brincam com a vida alheia em nome de engajamento e guerra cultural. É como a fé — que poderia ser espaço de cuidado, ética e solidariedade — foi sequestrada para legitimar projetos de poder totalitário.

A esquerda, se quiser ser alternativa real, precisa se manter fora desse pântano simbólico. Precisa denunciar a irresponsabilidade sem desumanizar, criticar a mobilização sem ridicularizar a fé, alertar para o perigo sem recorrer à lógica do castigo divino. A política democrática exige mais imaginação, mais ética e mais coragem do que simplesmente responder no mesmo tom.

O raio caiu. O barulho passou. O risco, não. Ele permanece, silencioso, acumulando energia no céu pesado da política brasileira. E, diferente dos fenômenos naturais, esse risco não é inevitável. Ele é construído. E, portanto, pode — e deve — ser enfrentado com lucidez, responsabilidade e compromisso democrático.

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