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Deputada bolsonarista é investigada por emenda de R$ 800 mil para clube de tiro de aliados

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Nas redes sociais, Zanatta (PL) publicou vídeo em tom de deboche prometendo enviar mais recursos para o clube de tiro. Imagem: reprodução Intagram

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A Procuradoria-Geral da República foi acionada nesta sexta-feira (14) para investigar a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) pelo suposto direcionamento de R$ 800 mil de emenda parlamentar a um clube de tiro privado ligado politicamente a ela. A representação, apresentada pela deputada Ana Paula Lima (PT-SC), foi motivada pela reportagem publicada pelo ICL Notícias, que revelou o fluxo do dinheiro público e os indícios de favorecimento à empresa Top Gun Armas e Acessórios Ltda.

O pedido à PGR se apoia no relatório técnico do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC), que identificou um conjunto robusto de irregularidades no processo licitatório conduzido pela Prefeitura de São José (SC). O órgão aponta elementos que sugerem desenho deliberado para beneficiar o clube, incluindo pesquisa de preços restrita, ausência de alternativas públicas, critérios sob medida, indícios de conluio entre empresas do mesmo ramo e até documentos com data falsa inseridos no processo.

Relação pessoal, inauguração e repasse em menos de um ano

Segundo o TCE, menos de um ano após a inauguração da Top Gun, em evento no qual Zanatta aparece em vídeo chamando os proprietários por apelidos e celebrando o empreendimento, a emenda destinada por ela ao município resultou na contratação direta da empresa. Até agora, o clube recebeu R$ 547 mil, vale ressaltar, de dinheiro público.

Ainda de acordo com o órgão, os indícios se enquadram nos crimes de frustração do caráter competitivo da licitação (art. 337-F do Código Penal), peculato-desvio, corrupção ativa e passiva, desvio de finalidade no uso de verba federal, atingindo princípios constitucionais da impessoalidade e moralidade.

A representação de Ana Paula Lima à PGR pede investigação criminal sob supervisão do STF, perícia nos documentos adulterados, quebra de sigilo de procedimentos e juntada completa dos autos do TCE-SC.

O texto destaca o risco de que emendas pix, pela falta de mecanismos de controle, sejam capturadas para projetos ideológicos e interesses privados, transformando verbas federais em ativo político particular.

Para os auditores, o histórico de proximidade da deputada com a empresa e a sequência dos fatos reforçam a suspeita de direcionamento. O relatório enviado ao TCU destaca também que, na inauguração, Zanatta afirmou que “todo poder emana do cano de uma arma”, discursou ao lado de outros parlamentares armamentistas e chamou o governo Lula de “genocida” após o decreto que restringiu a circulação de armas.

Auditoria revela irregularidades graves

O relatório do TCE-SC, elaborado em conjunto com o Tribunal de Contas da União na Rede Integrar, lista mais de 200 achados de auditoria, entre eles:

Pesquisa de preços limitada, consultando apenas a Top Gun e outra empresa do mesmo ramo, de Criciúma, cidade natal da deputada
Pelo menos dez clubes de tiro em um raio de 20 km que poderiam ter sido consultados foram ignorados;
Planejamento com aglutinação indevida de vários cursos em um único lote, restringindo a competitividade;
Orçamento sigiloso sem justificativa, dificultando a participação de outros fornecedores;
Documento com data falsa, que mascarou atraso de pelo menos 18 dias em uma etapa do pregão;
Insuficiência técnica da Top Gun para ministrar parte das atividades, incluindo o curso de direção tática, para o qual não possuía estrutura adequada;
Possível conluio com outro fornecedor, cujo orçamento seguia redação praticamente idêntica à da Top Gun;
Fragilidade na vistoria de qualificação técnica e indícios de leniência da pregoeira responsável.
Apesar dos problemas, somente a Top Gun participou do pregão que resultou na contratação.

Falhas que poderiam ter sido evitadas

O TCE também identificou que a Prefeitura de São José poderia ter recorrido a instituições públicas, como a Universidade Corporativa da PRF, a Academia da PM ou da Polícia Civil, para oferecer os cursos de formação e treinamento da Guarda Municipal, o que reduziria custos e ampliaria a segurança jurídica. Nenhuma delas foi consultada.

Em nota, a prefeitura afirmou que “todo o processo seguiu rigorosamente os trâmites legais” e que a administração age com “transparência e conformidade”.

Vídeo em tom de deboche e promessa de enviar mais verba

Após a primeira reportagem revelar a aplicação dos R$ 800 mil, Zanatta publicou um vídeo em tom de deboche, com uma arma na cintura, prometendo enviar ainda mais recursos para a compra de “munição e fuzil”. Ela não respondeu aos indícios colhidos pelo TCE.

A fala reforçou as preocupações dos auditores: há uma ata de registro de preços vigente até novembro de 2026, com valor total de R$ 3,07 milhões, o que permite novos repasses por meio de emendas futuras, abrindo margem para que o benefício ao clube seja ampliado.

Além do TCE, auditores da Rede Integrar afirmam que o caso é emblemático. O relatório destaca expressões incomuns em documentos técnicos, como “saltam aos olhos vários indícios de direcionamento”, o que sinaliza a percepção de gravidade.

A denúncia agora está com o procurador-geral Paulo Gonet, que deverá definir se abre investigação formal. A PGR pode solicitar diligências da Polícia Federal e do TCU.

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