O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão do inquérito aberto pela Polícia Civil do Rio de Janeiro que investigava a retirada de corpos por moradores após a operação policial que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha. A decisão foi publicada nesta segunda-feira (10), no mesmo documento que ordena ao governo fluminense a preservação das imagens das câmeras corporais usadas por agentes na ação, além da entrega dos laudos de autópsia das vítimas.
O inquérito havia sido instaurado após familiares e vizinhos subirem a mata da Serra da Misericórdia no dia seguinte à operação para buscar corpos que haviam sido deixados no local. Diante da ausência do Estado na remoção e identificação dos mortos, moradores organizaram o resgate por conta própria. Nas imagens que rodaram o país, dezenas de corpos foram estendidos na Praça São Lucas, onde mães e parentes tentavam identificar os seus.
A Polícia Civil alegava apurar possível fraude processual e afirmou, à época, que peças de roupas supostamente camufladas estariam sendo retiradas dos mortos. A corporação disse que o objetivo não era investigar familiares, mas uma eventual ordem de facção criminosa para ocultar vínculos dos mortos. A versão gerou forte reação de organizações de direitos humanos e das próprias famílias, que viam na investigação uma tentativa de criminalizar quem tentava recuperar dignidade mínima para enterrar seus parentes.
Para muitos moradores, a investigação era mais uma camada de violência sobre uma comunidade já traumatizada. Erivelton Correia, de 48 anos, morador da Penha há mais de uma década, participou diretamente do resgate. Ele afirma ter carregado mais de 80 corpos. “Entreguei seis no hospital Getúlio Vargas e o restante trouxe para cá para tentar identificar as pessoas, coisa que a segurança pública não fez”, disse ele, em entrevista à Ponte Jornalismo, apontando para a praça onde mães se desesperavam ao reconhecer filhos e irmãos.
A cena se repetiu em vários pontos do complexo. Taiane de Oliveira, de 32 anos, lembra que ficou deitada no chão com os filhos enquanto os tiros atravessavam as casas logo ao amanhecer. “Estamos sem ânimo para nada. A gente só quer paz”, disse. Já Fabiana, moradora da mesma região, afirmou que o Estado falha antes, durante e depois das operações. “Não criamos nossos filhos para entrarem para o crime. Quando entram, foi toda uma sociedade que falhou, principalmente o governo.”
No dia da operação, cerca de 2.500 agentes avançaram sobre o Alemão e a Penha, retomando áreas de mata que já haviam sido palco de tentativas de pacificação no passado. A Serra da Misericórdia, antes apresentada como símbolo de um projeto de convivência e esporte, voltou a ser lembrada como corredor de fuga e território abandonado pelo Estado.
Mesmo diante da dor exposta nos resgates improvisados, o governador Cláudio Castro (PL) classificou a operação como um “sucesso” e chegou a dizer que, se necessário, o Estado “excederia mais ainda” para garantir a segurança pública. Enquanto isso, famílias continuavam no IML identificando corpos.
A decisão de Moraes vem após pressão de organizações sociais, parlamentares e familiares que denunciavam a tentativa de transformar vítimas e parentes em suspeitos. Ao suspender o inquérito, o ministro também exige que a Polícia Civil explique, em 48 horas, os procedimentos adotados.
Para os moradores, a ordem do STF não apaga a violência, mas interrompe um segundo processo de humilhação: o de criminalizar quem recolhe seus mortos.


